[RESENHA] “Frida Kahlo: conexões entre mulheres surrealistas no México” | Por Eleni Rosa










Por Eleni Rosa



Uma possível crônica sobre o Rio, arte e “Frida Kahlo”

Os cariocas antenados sabem que está rolando, desde 30 de janeiro, a Exposição “Frida Kahlo: conexões entre mulheres surrealistas no México”, na Caixa Cultural. A exposição está em sua reta final e no dia 27 de março, daqui a duas semaninhas nos deixará.

Pegando onda no texto que li, e adorei, no Observatório da Imprensa, que fez uma crítica sobre a busca por uma cultura de massa a partir dos lançamentos cinematográficos de Hollywood e a pouca procura por uma cultura relevante, faço o seguinte paralelo:

Aos que ainda não puderam ir à exposição de Frida, por inúmeros motivos, que não incluiu assistir a saga “Star Wars” ou qualquer outra fita do gênero, mas que, estando no Rio, pretextos não faltam como:

·   a visita ao Museu do Amanhã, pois afinal quem no Rio, quiçá no Brasil, não está curioso para visitar a obra do arquiteto espanhol Santiago Calatrava, vivenciar esse tour interno e aproveitar o novo visual da Praça Mauá revitalizada? Creio que, para os gladiadores do sol, tenha sido uma grande experiência;
·  os blocos de carnaval, quem não quer conhecer, ir pelo menos uma vez? Passada a onda do carnaval, a romaria às praias e o ‘pit stop’ com os amigos para tomar aquela cervejinha estupidamente gelada em algum bar da cidade, famoso ou não, afinal o Rio nunca esteve tão quente. Sem mencionar que essas circuladas pela cidade faz parte da cultura do carioca. Impossível resistir;
·    tirando o sol da fila para o Museu, o vuco vuco dos blocos e as praias, creio que muitos tiveram a predileção pelas salas supergeladas dos cinemas. Pondero que a partir de janeiro teve início à corrida dos cinéfilos para assistir aos filmes que concorriam ao Oscar - com o calor que faz no Rio, o cinema é um verdadeiro ‘point’. Filmes como  ‘Os Oito Odiados’, de Tarantino, ‘O Quarto de Jack’, o estrangeiro ‘Filho de Saul’... até os favoritos ‘Spotlight’ e ‘O Resgate’, foram motivos para desviar a atenção de qualquer ser humano.

Mas não ‘cutucarei’ a corrida às salas, muito menos as escolhas dos filmes, e ainda lembro que depois dessa fase ‘oscariana’, em fevereiro, nos divertimos muito com o engraçado ‘Deadpool’ e muitos estão aos gritos com a ‘Bruxa’, que estreou esse mês. E, nesse último fim de semana, os apaixonados por HQs se digladiarão por ‘Batman Vs Superman’. Haja fôlego!

Bem, assim é o nosso Rio e seu povo despojado. Então você pode até pensar que ninguém está frequentando exposições... mas “Frida Kahlo”, está lotando a Caixa Cultural. Aí você pergunta: O que essa mexicana tem de tão atrativo? Qual o ‘borogodó’ dessa mulher? Agora eu posso te contar tudinho, pois eu estive lá. 

A Exposição

Apaixonei-me por Frida Kahlo antes de 2002, quando foi lançado seu filme. Fiquei na expectativa da saída da exposição de Sampa e o desembarque de “Frida Kahlo: conexões entre mulheres surrealistas no México”, no Rio. Demorei horrores para ir, pois não conseguia fazer o agendamento pelo site da Caixa Cultural. Enfim, fui.

Para quem não conhece ou não mora no Rio, a Caixa Cultural está situada no coração do centro da cidade. Diferentemente do Centro Cultural Banco do Brasil, com sua característica histórica e sua estrutura neoclássica dos idos 1900, a Caixa é novinha, criada em 2006, no prédio petinho da Estação Carioca, do Metrô.

A unidade é enorme e abriga em seus mais de 6000m², um teatro de arena, dois cinemas, três galerias de arte e uma livraria, além de salas de oficinas e ensaios. Apesar de jovem, o espaço já se tornou referência no Rio, recebendo acolhida do meio cultural e visitação cada vez mais significativa. E, claro, nós cariocas, agradecemos por mais um espaço.

A exposição, com curadoria da pesquisadora Teresa Arcq, apresenta 30 obras da artista mexicana, são 20 óleos sobre tela e 10 trabalhos utilizando outras técnicas. Para representar o universo de Frida, foram trazidas obras de artistas femininas, nascidas ou moradoras do México, que foram atraídas pela cultura e tradições do país e beberam da água de Kahlo. São artistas pouco conhecidas do público brasileiro, mas fundamentais para comprovar a força de Frida: María Izquierdo, Remedios Varo, Leonora Carrington, Rosa Rolanda, Lola Álvarez Bravo, Lucienne Bloch, Alice Rahon, Kati Horna, Bridget Tichenor, Jacqueline Lamba, Bona de Mandiargues, Cordélia Urueta, Olga Costa e Sylvia Fein, dessas representações os visitantes poderão admirar cerca de cem obras. Superinteressante!





Autorretrato com colar de espinhos e colibri, 1940



Depois de aguardar uma hora na fila, consegui, finalmente, pisar na sala e vislumbrar a primeira tela. E, mais uma vez, me deparei com a figura forte no autorretrato, uma senhora revolucionária, comunista, transgressora e vanguardista – Frida Kahlo. 




Diego em meus pensamentos - 1943





Ao percorrer as salas constatamos que a filha do fotógrafo Guillermo nos revela em vários autorretratos. Frida foi fotografada por grandes fotógrafos, Lola Alvarez Bravo, Gisèle Freund e Lucienne Bloch. E no momento atual, onde vivemos o mundo das selfie, o ‘The New York Times’ a chamou de ‘mãe do selfie’, criadora da primeira selfie-artist. Ao longo de sua carreira, ela pintou diversos autorretratos que traduziam sua arte e seu sofrimento.






Auto retrato com colar - 1933



A marcante mexicana além de influenciar as personas femininas também   mostrou ter grande ascendência sobre a moda e, segundo a curadoria da exposição, foi realizada uma pesquisa a partir das fotos de Frida, feitas pelo fotografo Nicholas Muray, para reproduzirem peças bem parecidas com as vestimentas da artista, já que os originais não podem sair da Casa Azul, museu de Frida, no México. A exposição nos deparamos com uma sala repleta de manequins vestidos de Frida.




Para provar a sua força na alta costura, a revista Vogue, em 2002, estampou em sua capa uma foto de Frida, de 1938, feita por Nickolas Muray (um dos seus amantes), que a eternizou. Sim, hoje grandes grifes se espelham nessa ‘persona’ autêntica e forte, que inspirou muitos estilistas ao longo dos anos -  Missoni, Valentino, Alberta Ferreti, Moschino, entre muitos outros,  que dedicaram coleções inteiras a ela.






Vogue, 2002


No segundo andar as diversas facetas da artista se abrem sob os olhos dos visitantes.  Frida que pintou apenas 143 telas durante sua curta vida, mas que marcou a arte no mundo e nos deixa arregalados diante dos detalhes de telas como “Diego em mi Pensamiento”- 1943, “El abrazo de amor del Universo, la tierra” -1949, Frida Kahlo e Diego Rivera”- 1931, “Autorretrato com cabelos cortados” -1940, Autorretrato com colar de espinhos e colibri” -1940, Autorretrato como tehuana -1943 e muitas outras. Sem falar nas belíssimas obras de suas seguidoras. Já na ‘Galeria 1’, que não visitei, é dedica a  exibição de filmes sobre as artista. Eu aconselho a visita.

O que devo falar mais sobre a exposição? Bem, eu esperava mais quadros dela, porém vale a pena esse passeio pela vida e história da vanguardista mexicana Frida Kahlo. Aos que ainda não puderam ir... corram, pois seu fim está próximo! Depois só na Casa Azul, no México.

Serviço

Exposição “Frida Kahlo: conexões entre mulheres surrealistas no México”
Caixa Cultural Rio de Janeiro, Centro
Até  27 de março de 2016
Endereço: Av. Almirante Barroso, 25, Centro
Terça a domingo, das 10h às 21h


Ps: Depois de São Paulo e Rio de Janeiro, o DF recebe exposição da artista. A mostra Frida Kahlo e as mulheres surrealistas no México, desembarca na Caixa Cultural de Brasília, de 13 de abril a 05 de junho de 2016. 

Para quem quer um resumo de: ‘Quem foi Frida’?

Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderon, conhecida como ‘Frida Kahlo’, nasceu em 6 de julho de 1907, em Coyoacan, no México.

Militante comunista e agitadora cultural, Frida usou tintas fortes para estampar em suas telas, muitas delas auto-retratos. Uma vida tumultuada por dores físicas e dramas emocionais que teve início com aos seis anos quando contraiu poliomielite. Recuperou-se, mas teve de conviver com um pé atrofiado e a perna esquerda mais fina que a outra.

Em setembro de 1925, aos 18, sua vida mudou tragicamente. O ônibus em que Frida e o seu noivo Alejandro Gómez Arias estavam, chocou-se com um trem. Frida foi varada por um ferro que lhe atravessou o abdome, a coluna vertebral e a pélvis. Ela sofreu múltiplas fraturas, fez 35 cirurgias e ficou muito tempo presa em uma cama. Frida dizia:

'E a sensação nunca mais me deixou, de que meu corpo carrega em si todas as chagas do mundo'.

Sua mãe pendurou um espelho em cima de sua cama, assim Frida começou a pintar freneticamente e logo surgiram os autorretratos. Ela sempre pintou a si mesma e proclamava:

'Eu pinto-me porque estou muitas vezes sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor'.




Em 1929, Frida se casa com Diogo Rivera, pintor mexicano mais importante do século 20 que fez parte do movimento muralista, que defendia a arte acessível. Os dois formaram o casal de artistas mais original da época, mas  Frida amargou muitas amantes do marido, seu grande amor e reconhecido mulherengo. Mas ela também viveu romances paralelos com mulheres e homens, o mais famoso com o revolucionário russo León Trotski. Apesar das traições do marido, Diego a traiu até com a sua irmã mais nova - Cristina, a maior dor de Frida foi à impossibilidade de ter filhos e seus abortos. E essa dor ficou nítida em seus quadros.



Diego ajudou Frida a revelar-se como artista. Em 1930, viajou com a esposa para os EUA, onde tinha trabalhos e exposições. A figura de Frida, mais mexicana do que nunca, chocava a todos com suas roupas, risos e gestos. Descobria-se uma forte e desejada mulher. Em Detroit, Frida engravida, mas sofre um aborto. Nesse período, Frida começou a produzir telas, tudo a respeito de sua perda, do quarto do hospital. De volta ao México, teve de superar ainda a morte da mãe Matilde, mais um aborto e algumas crises no seu casamento.







Coluna Rota- Frida Kahlo (1944)


Em 1939 foi para Nova York, onde faz sua primeira exposição individual, na galeria de Julien Levy. Com o sucesso segue para Paris. Lá é hospitalizada com uma infecção renal. Mas na Europa ela entra em contato com a vanguarda artística dos surrealistas - Conhece Pablo Picasso, Wassily Kandinsky, Marcel Duchamp, Paul Éluard e Max Ernst. O museu do Louvre adquire um de seus auto-retratos. No mesmo ano, divorcia-se de Diego, com quem volta a se casar um ano depois.

Seu estado de saúde piorou, e o colete de gesso, de uso obrigatório, foi substituído por um de ferro. Em 1946 sua coluna precisou ser operada. Durante o ano de 1950 é tratada no Hospital Inglês, e continuou pintando até que os médicos decidiram por amputar sua perna e ela entra em depressão. Pinta suas últimas obras, entre suas 143 telas. E nos anos de 1950-1951, passa por sete operações na coluna.

O martírio de Frida termina na madrugada de 13 de julho de 1954, quando foi encontrada morta no auge dos seus 47 anos. Oficialmente, a morte foi causada por 'embolia pulmonar', embora exista suspeita de suicídio. (informações retiradas da Revista Época)

Algumas frases de Frida:

- "Para que preciso de pés quando tenho asas para voar?"

- "Eu nunca pinto sonhos ou pesadelos. Pinto a minha própria realidade."

- "Bebi porque queria afogar minhas mágoas, mas agora as coisas malditas aprenderam a nadar."

- "Eu pinto autorretratos porque estou muitas vezes sozinha e porque eu sou a pessoa que eu conheço melhor."


Curiosidade:



Frida Kahlo foi a primeira artista latino-americana a vender um quadro por US$ 1 milhão.  Ela expôs seus trabalhos no eixo Estados Unidos e França. Sempre recebendo bem quista pela crítica. 



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