[CINEAIL]"Que Horas Ela Volta?" de Anna Muylaert | Por Eleni Rosa


Sinopse: A pernambucana Val (Regina Casé) se mudou para São Paulo a fim de dar melhores condições de vida para sua filha Jéssica. Com muito receio, ela deixou a menina no interior de Pernambuco para ser babá de Fabinho, morando integralmente na casa de seus patrões. Treze anos depois, quando o menino (Michel Joelsas) vai prestar vestibular, Jéssica (Camila Márdila) lhe telefona, pedindo ajuda para ir à São Paulo, no intuito de prestar a mesma prova. Os chefes de Val recebem a menina de braços abertos, só que quando ela deixa de seguir certo protocolo, circulando livremente, como não deveria, a situação se complica.

Título: "Que Horas Ela Volta?" | Diretor(a): Anna Muylaert| Gênero: Cinema Nacional| Ano: 2015|

Por Eleni Rosa 



Dirigido por Anna Muylaert (Durval Discos, É Proibido Fumar), tendo como atriz principal Regina Casé e Camila Márdila, felizmente, ‘Que Horas Ela Volta’ é um filme diferenciado. Em entrevista ao canal Globo News a diretora reafirma que, apesar da indecisão que os críticos têm em posicionar seu filme sendo uma fita de arte ou popular, seu filme é popular, mantendo uma linguagem fácil e um final de esperança. Seu diferencial é ir além dos clichês atualmente apresentados nas telas.



‘Que Horas Ela Volta’ traz no papel principal a atriz Regina Casé, que está perfeita na pele da empregada doméstica Val, contribuindo para o retrato mais próximo da realidade, embora sua personagem seja criada com certa leveza e trejeitos cômicos, ela não deixa de passar o que acontece no universo entre a sala de jantar e a cozinha. Em contra ponto, sua filha Jéssica, vivida pela também excelente, porém não tão conhecida, Camila Márdila, uma jovem de 17 anos que chega do interior de Pernambuco, para realizar o vestibular e fazer a revolução no convívio entre patrões e empregada.  


Tendo um contexto triste, pesado que faça submergir a história sofrida do povo nordestino, na qual muitas mães deixam seus filhos, para tentar a vida nas grandes cidades e ficam anos sem poder revê-los e ao ingressarem em suas funções de empregadas; baba, cozinheiras, domésticas, transferem todo seu afeto para os filhos dos patrões. E, nesse ritmo, patrões perdem os laços afetivos com seus rebentos enquanto seus filhos aprendem a gostar de suas mães postiças. Na cadência de ressentimentos, em ‘Lá maior’, as animosidades vão se aglutinando e ganhando força.



Na história de Muylaert, que também é roteirista, Val trabalha e reside na casa de uma família da classe alta paulistana, mantendo uma relação de subserviência total e irrestrita a seus empregadores que, falsamente a tem como um membro da família – Diz-se, Val “é de casa”. No entanto sua filha é uma jovem segura, cheia de si, que, segundo ela, por influência de seu professor de história, aprendeu a pensar. Depois de 10 anos sem ver a mãe, Jéssica vai reencontrá-la com o objetivo de realizar o vestibular para arquitetura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, uma das melhores universidades do país e ter um futuro diferenciado.



No primeiro momento os patrões de Val acolhem sua filha. Em uma passagem interessante do filme, quando é revelada a pretensão de Jéssica em cursar arquitetura, a patroa de Val, interpretada por Kamile Teles, ironiza: "Este país está mudando mesmo, hein?".



O posicionamento da menina mexe com cada um da casa. Por não ser empregada Jéssica é hábil e revindica a condição de hóspede e, diferentemente de sua mãe, não liga para os costumes velados e selados aos empregados: Qual a mesa deve usar para comer? Quem pode entrar na sala? Entrar na piscina da casa é proibido? E, principalmente: Não se deve tomar o sorvete preferido do único filho do casal.



Camila Márdila interpreta uma jovem que não é ‘a jovem problema’, assim expõe uma juventude distinta e atenta aos problemas igualitários e não aceita imposições sociais. Como disse a própria diretora: ‘ Jéssica luta por cidadania e retrata, sem querer, a mudança do Brasil nos últimos 10 anos’.



O longa, em seu essência, busca ser uma lupa sobre as mazelas do convívio entre domésticas e patrões, deixa à mostra as minúcias de um relacionamento social que há décadas se espelha no conflito de classes e, mais um pouquinho, na época escravagista brasileira, talvez  uma inspiração no livro Casa Grande e Senzala, com um “Q” feminista.   As atuações são tão realistas que li, em algum periódico, que na sua mostra internacional muitos acharam que o filme se tratava de um documentário.



O Filme é muito contido, é possível ler os gestos dos personagens e a riqueza no diálogo é admirável. Não tem a melhor fotografia, mas tem os enquadramentos perfeitos que visitam verdadeiramente o vaivém na cozinha, os corredores escuros, os quartos, o isolamento das pessoas e o poder da classe que tem mais condições no país.



Há um tempinho nós brasileiros não comungávamos um filme digno das telonas. De repente, aparece nos noticiários, a nota de um filme tupiniquim ‘bombando’ nos festivais internacionais. Achei a novidade meio ‘nonsense’, mas o bom disso tudo é que é verdade.  O filme ‘Que Horas Ela Volta’ foi premiado nos festivais de Sundance, nos Estados Unidos da América e em Berlim, na Alemanha, e, depois dessa trajetória ascendente, claro, foi indicado para representar o Brasil como pré-candidato ao Oscar 2016.



Nunca assisti nada parecido, de repente lembro-me do filme americano ‘Histórias Cruzadas’, que também retrata o relacionamento de patroas e suas empregadas negras na luta por respeito e dignidade. Muito embora sua abordagem esteja no olho do furacão da luta dos direitos civis americanos, em 1960. Mas o nosso filme é sutil, atual e não é tão explicito quanto o estadunidense, afinal são outros tempos, e, em sua sutileza faz pensar.  



Não tem o que dizer. Tem que assistir. Sim, super indico, ‘é um filme de grandes plateias’.  



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