[RESENHA] "Arrabal e a Noiva do Capitão", de Marisa Ferrari, por Stef Rhoden

Sinopse: Giordano e Giuseppe são idênticos na aparência, mas suas almas não poderiam ser mais diferentes. O bravo Giordano é o capitão-chefe da Guarda Real. Giuseppe é um ator de coração puro e alegria contagiante que viaja com sua trupe para se apresentar nas praças e castelos da região. 
De caráter inflexível, Giordano tem como sua maior missão proteger o Rei. Por sua vez, o sonhador Giusseppe deseja escrever uma peça de teatro com diálogos, o que seria uma inovação para a época. 
Embora não sejam propriamente amigos, os dois irmãos vivem uma espécie de acordo de cavalheiros, respeitando o espaço um do outro e lidando com o delicado estado de saúde de sua mãe. Até que a formosa Luigia acaba com a paz da família Romanelli...

Trecho: "- Você é derrotista! Sempre foi! Eu não tenho culpa que prefira a segurança das paredes de casa a correr o risco de ser feliz. Há sempre um risco embutido quando se corre atrás de um sonho. Acontece que eu sempre prefiro me atirar porque da mesma forma que posso morrer, posso sobreviver e conseguir! 
- Não é questão de ser derrotista. É um fato! Ela não vai ser feliz aqui! - disse Giordano olhando em torno. 
Arrabal enxugou na toalha de linho de Mamma os restos de sabão e de sangue, desenhando um rastro sinistro no pano, que incomodou Giordano. 
- Deixei tudo para você. - prosseguiu Arrabal, emocionado - Meu pai, minha mãe, Teresa, as marionetes, o respeito, a admiração das pessoas. Eu só quis o teatro e, agora, Luigia".



Título: Arrabal e a noiva do Capitão 

Autora: Marisa Ferrari 
Ed. Novo Conceito | 2014 | Brochura | 368 páginas


Resenha: Acho que este foi um dos livros que mais demorei a ler na vida: uns dois meses. Na verdade, me custou dois meses para chegar até a metade e mais dois dias para ler a outra metade. Tudo porque a história só me cativou, de fato, a partir do meio. 
Não, o livro não é ruim. Ele é ótimo, na verdade! Continuem lendo e saberão que adorei e que recomendo! Mas o que não me empolgou no início é que me parecia uma novela italiana. Aliás, impossível não imaginar Thiago Lacerda como os gêmeos Giordano e Giuseppe... 


Giordano e Giuseppe... Perfetto!


Tudo começa no dia em que os gêmeos nasceram. Depois uma pequena parte da infância deles e sua vida adulta. E é aqui que a coisa ficou meio entediante para mim, porque a história demora demais a deslanchar. 


A princípio, temos um retrato de Arrabal, a identidade que Giuseppe assume ao largar toda a nobreza pelo teatro e pela liberdade de viver de arte. Passamos os olhos pelos personagens secundários que fazem parte da Trupe do Poeta Arrabal: Mamma, Dottore, Gigi, Vincé e Francesca. Cada um deles nos é apresentado, assim como a carroça onde moram, que também é uma das personagens da história. 

A Trupe tem personagens bastante caricatos; Mamma é o exemplo típico da gorda "mamma" italiana: protetora, emocional, dramática, mas capaz de tudo para proteger seus "filhos"; as constantes brigas entre Dottore e Vincé, que deveriam fazer a parte cômica da trama, além de Francesca, a garotinha que Arrabal pegou pedindo esmola nas estradas e trouxe para morar com eles, mas agora se tornou uma mulher apaixonada pelo poeta e faz de tudo para seduzir um homem que a vê como irmã caçula. Todos brigam muito, falam alto, se acotovelam... Bem como se vivessem em uma novela italiana das 20h! Não é ruim, apenas... Batido! 

Após a Trupe, é a vez da autora nos apresenta Luigia, que deveria ser a mocinha da história e uma personagem interessante, mas... Francamente... Luigia não passa de uma mulher bonita que fica p. da vida porque o pai quer decidir com quem ela vai se casar, enquanto ela quer se casar por amor. Sério! 

Eu já estava suspirando impaciente quando virei a página e, no capítulo seguinte, somos apresentados à Marquesa Vittoria, e eu fiquei bastante confusa! A autora queria que Luigia fosse a mocinha, mas é Vittoria a verdadeira protagonista e heroína do livro! Ela é a personagem apaixonante, que move toda a história! Ela é o centro de tudo, chegando a tomar o lugar de Arrabal e Giordano! O livro deveria se chamar "Vittoria"! Mas a autora insiste em deixá-la como secundária e eu fiquei... Confusa e desapontada. 

Para piorar minhas primeiras impressões, só conhecemos o Capitão Giordano lá pela página 80. E só então descobrimos a diferença entre os gêmeos: enquanto Giordano se torna um oficial de alto escalão do exército de Nápoles, Itália, Arrabal (Giuseppe) se entrega às suas emoções. Percebemos em Giordano um certo ressentimento do irmão: na cabeça do Capitão do Rei, alguém precisa realmente fazer o trabalho árduo enquanto Arrabal vive de sonhos. Já Arrabal se ressente do fato de que o irmão não consiga se libertar das convenções para ser feliz, uma vez que ele tem o mesmo amor pelo teatro e pela poesia. Um pouco clichê, mas tudo bem. A construção dos personagens ficou bacana. Mesmo! 

O fato é que, só para que nós consigamos entender os personagens, já se passaram mais de cem páginas. E nada acontece. NADA! Apenas falação e mais falação, foco em gente demais. Eu já estava ficando agoniada, confundindo nomes e histórias... 
Até o momento em que Giordano conhece Luigia e se apaixona por ela. E ela por ele. E por Arrabal. E Arrabal por ela. 

Aí a história começa a ficar boa, emocionante, com situações inesperadas, reviravoltas... Juro que não esperava que o livro fosse tomar o rumo que tomou, que tivesse o final que teve. Fiquei ENCANTADA! É quando a autora para de falar quem são os personagens e os deixa simplesmente atuar, nos mostrar quem são. Quando eles verdadeiramente tomam vida, conseguimos deixar de lado todos os clichês e caricaturas e começamos a nos encantar por cada um deles, incluindo a mimada Francesca. A história ficou tão, mas tão boa que até consegui perdoar a autora por vários dos pontos que listei aqui, como a demora para iniciar a narração. Enfim, leiam e vão saber do que eu estou falando. 

Resumindo, o livro é bom e eu recomendo. A autora conseguiu criar uma boa visão da Nápoles do século XVIII, da Commedia dell'Arte. Eu fiquei fascinada pelos personagens da Commedia que a trupe interpreta: o Arlequino, Colombina, Dottore, Puncinella... Quis saber mais sobre o assunto e gosto quando um livro mexe com a minha curiosidade. A pesquisa histórica que ela fez para escrever, também, é impecável. Eu realmente me vi na Nápoles do século XVIII. 

O que, infelizmente, não me convenceu, foi o Luigia e ainda não entendi o que fez os gêmeos se apaixonarem por ela... Ela é chata e sem graça! Quer parecer uma mulher liberal, mas não passa de uma garota mimada, tanto quanto Francesca. Mas eu compreendi totalmente o porquê dela ter se apaixonado pelos gêmeos. Arrabal e sua poesia. Giordano e sua paixão... Ai, ai... Deixe-me conter um suspiro por Giordano... E por Arrabal... Impossível não se apaixonar pelos dois! 

Enfim, se você gosta de teatro, de história, de poesia e arte, se gosta da personalidade dos italianos, mesmo aquela ideia mais clichê que nós temos por aqui, vai amar do livro e se encantar! Mas se prefere uma história com mais ação e menos falação, recomendo um outro livro. 

Até a próxima! 

Stéfanie Rhoden

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