[RESENHA] "Mulheres que Escolhem Demais" de Lori Gottlieb por Eleni Rosa




“Hoje, elas querem que o homem seja igual à mulher. Querem falar com ele do mesmo jeito que conversam com as amigas. Isso é com os gays! Os gays conversam por horas, fofocam, falam sobre a vida pessoal... os héteros não. Eles não querem aprofundar-se nos sentimentos. Há um grande desentendimento no casamento moderno porque mulheres e homens não têm tanto em comum assim.”
“...os homens têm de mudar seu comportamento para se encaixar nelas. As mulheres pedem a eles que sejam o que não são e, quando eles se tornam o que não são, elas não os querem mais.”

“ O feminismo cometeu o engano de tentar reduzir a vida feminina as conquistas profissionais.”Camille Paglia


No mês de março eu li uma entrevista nas Páginas Amarelas da revista Veja e muitos parágrafos me deixaram indignada, porém, eu não poderia deixar de citar alguns no início da minha jornada de apresentação do livro ‘Mulheres que Escolhem de mais’.  Afinal a autora de ‘Personas Sexuais’, Camille Paglia, poderia ter sido uma das entrevistadas de Lori Gottlieb, autora do nosso livro.

‘Mulheres que Escolhem de mais’, é um livro elucidativo. Seu tema envolve o que tanto nós mulheres, escutamos de amigas, conversamos nos encontros em bares, em bate-papos confidenciais, ao telefone. O que nos questionamos e o quanto as interrogações envolvem as nossas cabecinhas ou nossos corações?
 
O primeiro capítulo tem início com um desenho sarcástico e com a frase Como foi que chegamos até aqui?”. O desenho de varias caveiras, femininas (é bom pontuar), em uma varanda e sozinhas, é dantesco. 

Afinal, o que toda mulher quer de um relacionamento? Qual a expectativa por uma boa companhia?  Quem será ‘O Cara’? Este é o dilema enfrentado por muitas mulheres do século XXI: como conciliar o desejo de encontrar um parceiro e constituir família com uma lista de requisitos além da realidade e com o dilema de ser moderna?

Lori Gottlieb é jornalista, trabalha em uma revista e, de repente, solteira aos 41 anos e choramingando suas mágoas, ela teve a dica de seu editor para escrever, a partir de sua vivência, um livro contando as agruras das mulheres à procura de sua cara metade. E ela abraça a causa e vai à luta.

O mais importante, a autora alinhava todo seu ser junto a cada frase, parágrafo e entrevistas. O livro é documental. Olha com julgamento, questionamento e compreensão todas as fases, épocas, história e atos compartilhados por cada entrevistado e/ou pela própria Lori. Não é ficção é pura realidade. É isso que nos pega de surpresa.

A autora não estava sozinha, ela recebeu orientações e dicas de pesquisadores, especialistas em relacionamentos, sociólogos, economistas comportamentais, consultores, neuropsiquiatras, terapeutas de casal, advogados e líderes religiosos, ouviu homens e mulheres casados e solteiros, de várias faixas etárias  – uma verdadeira pesquisa, digna de tese de doutorado. 

Ninguém é perfeito. Todos têm defeitos. Não há Príncipe Encantado. Essas premissas eu tenho plena certeza que são verdadeiras e faz tempo. Mas, têm muitos, digo, muitas que não partem desse princípio. Infelizmente.


Em cada namoro a mulher procura por características perfeitas, que cruzam completamente com todos os itens de seu caderninho. E, ao notar um defeito ou a carência de algo que julgue relevante, ela decididamente despacha o cara. Mas será que a mulher já pensou se ela é tão perfeita que merece alguém melhor? Será que ela não apresenta defeitos? 


“-Essa é uma grande verdade! – afirmou Liz, uma roteirista de 37 anos. – Minha vontade é sacudir as mulheres mais novas e dizer: ‘Sabem de uma coisa? O sujeito que ri alto em público pode não gostar da maneira como vocês mastigam cenouras cruas em coquetéis, mas, para ele, isso não é motivo para romper uma relação.” Pág. 25


As mulheres se empenham a dar notas aos seus pretendentes.


“É como ser um juiz nas Olimpíadas que dá aos homens uma classificação de ‘marido’: todo mundo começa com um 10, depois o juiz tira pontos de qualquer imperfeição. Ele não é divertido o bastante? Menos dois pontos. Suas sobrancelhas  são cerradas. Menos um ponto.” Pág. 119



Segundo as inúmeras entrevistas, o que se lê, o que é possível perceber e o que a realidade nos mostra  é que as pessoas sofrem o ímpeto de tentar mudar seu parceiro, transforma-lo segundo seu projeto de vida. O que não é verdadeiro e o que é forçado e não faz parte da realidade não pode funcionar. 

“...quanto deve uma pessoa mudar para que um realacionamento funcione?”. Pag.153
“...não se trata de mudar a outra pessoa; trata-se de aceitar as coisas que você gostaria de mudar na outra pessoa, mas não consegue.” Pag.153



A sintonia encontrada em Paglia, na entrevista descrita nas paginas Amarelas de Veja, e Lori, é muito interessante. Ambas, também citam o seriado “Sex and City”. O questionamento da mulher atual, pós-revolução feminista, veja os trechos abaixo:

“Sex and City. Elas são espertas e ambiciosas, mas vivem uma situação em que fazem sexo com uma incrível quantidade de homens e de repente é o homem que escolhe com quem vai ficar...e quando resolvem casar, querem as de 20 anos. É muito difícil.”Camille Paglia


...megassucesso rendeu quase 200 milhões de dólares só nos EUA... mostrou que as plateias pagavam para ver mulheres fortes e bem-sucedidas na telona...provou também outra coisa: que não sabemos a diferença entre “fortes” e “egocêntricas”... ...Samantha diz ao seu maravilhoso namorado, que ficou ao seu lado quando ela teve câncer de mama, que vai romper com ele porque “amo você, mas me amo mais!”. Pág. 120 e 121





Afinal o que é estar à frente de seu tempo?  O que importa? Que exemplo é esse mostrado por um seriado, um filme que leva padrões, fora da realidade, para tantas pessoas? E qual o espelho deveremos olhar?



As fêmeas alfas continuam sendo predadoras, mas será que realmente é isso que ela quer?  Buscando a perfeição muitas continuam a não encontrar a pessoa que busca. A procura do irreal elas continuam castrando oportunidades, fechando portas, quando negam um segundo encontro, outra chance.



“Elas não querem esperar para ver o que pode ocorrer no segundo ou no terceiro encontro. Elas querem tudo na mesma hora, e não têm paciência para homens que não causam boa impressão de imediato: ou ele arrebata, ou ela não quer mais saber dele.” Pág. 176


O livro impressiona. Bem alinhavado, dinâmico, despretensioso, a narração é habilidosa fiquei surpresa. E a surpresa foi muito, muito boa. A primeira coisa que pensei foi indicar a todas as minhas amigas solteiras.


Mas o livro não é só para mulheres, também, ajuda os homens a entender um pouco, as causas que levam uma mulher a desistir de um relacionamento. A autora não ensina, ela passa relatos, histórias, vivências e isso é importante para chegarmos a algumas conclusões ou simplesmente, nos faz questionar mais um pouquinho sobre nossos atos.






Meu dilema foi ler auto ajuda, sim, não faço uma regra esse tipo de leitura. Mas gostei muito e recomendo mil vezes! A obra pode ser lida por mulheres e, claro, homens de qualquer idade.  Para mim, o mais importante, está no final que não é piegas, não é conto de fadas, e isso é fundamental. 


Para terminar minha resenha escolhi esse trecho do livro que diz muito:


“mesmo nossos melhores amigos não satisfazem todas as nossas expectativas, por isso temos muitas amigas íntimas, não apenas uma.” Pág.182


Então por que para companheiro  ‘O Cara’ tem que ser nota 10? Enquanto nossas amizades, imperfeitas, são eternas. Afinal, nós a amamos. 

Por Eleni Rosa

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