[RESENHA] "A Filha do Louco" de Megan Shepherd por Eleni Rosa



Sinopse:Juliet Moreau construiu sua vida em Londres trabalhando como arrumadeira — e tentando se esquecer do escândalo que arruinou sua reputação e a de sua mãe, afinal ninguém conseguira provar que seu pai, o Dr. Moreau, fora realmente o autor daquelas sinistras experiências envolvendo seres humanos e animais.
De qualquer forma, seu pai e sua mãe estavam mortos agora, portanto, os boatos e as intrigas da sociedade londrina não poderiam mais afetá-la... Mas, então, ela descobre que o Dr. Moreau continua vivo, exilado em uma remota ilha tropical e, provavelmente, fazendo suas trágicas experiências. Acompanhada por Montgomery, o belo e jovem assistente do cirurgião, e Edward, um enigmático náufrago, Juliet viaja até a ilha para descobrir até onde são verdadeiras as acusações que apontam para sua família.

Leia um trecho do livro, aqui.

Resenha: Como um verdadeiro romance gótico daqueles cultivados no século XIX, na Inglaterra da Rainha Vitória - há indícios para chegar a esta conclusão -, o livro traz muitas das características desse movimento. Este é ambientado em cenário lúgubre e desolado, abordando toda série de horrores, mistérios terrificantes, torturas etc. O Livro é muito bem escrito.

No primeiro momento lembrei-me de Frankenstein – romance de terror gótico, de autoria de Mary Shelley, escritora britânica, que publicou a história em 1818. Seu livro, posteriormente, deu origem a vários filmes, os mais primitivos, em 1910 e 1931. 

Como o gênero de horror teve e tem grande influência na literatura e cultura popular ocidental e que, até hoje, nos faz sentir arrepios, nada mais justo que atribuir essa inspiração a autora Megan Shepherd. 

Shepherd aborda temas como criador e criatura, com evidências nas implicações religiosas. O poder exercido pela humanidade sobre a Natureza através da ciência e da tecnologia, o tema da amizade também está presente na obra, além do preconceito, ingratidão, injustiça. Depois desse leque de possibilidades minha mente ‘atracou’ em Frankenstein, mas não estava totalmente certa. 

Sim, a inspiração para a estreante autora, está na  The Islan of Dr. Moreau – A Ilha do Dr. Moreau, do autor H.G. Wells, de 1896. Hollywood colocou a história nas telonas em 1977, estrelado por Burt Lancaster, e em 1996, surgiu outro filme, estrelado por Marlon Brando.

O livro A Filha do Louco é narrado em primeira pessoa, por Juliet, a mocinha da trama. Logo somos apresentados ao enredo que  fala de um médico que cria criaturas monstruosas em uma ilha tropical. Moreau é um cientista obcecado pela ideia de transformar animais em homens através de cirurgias. 

A chamada vivisseção é o crime em que Moreau é acusado, assim ele é obrigado a fugir e se refugir em uma ilha distante’. Detalhe, esse é exatamente o essência da história de A Ilha do Dr. Moreau.  
  
Todos devem estar me odiando, pois ainda não iniciei o relato sobre este livro surpreendente, pois bem, vamos lá. Juliet, tem apenas 16 anos e relata sua vida difícil ao se tornar órfã de pai e mãe. Depois de gozar dos louros da boa vida londrina a jovem é imposta, pelo destino, a viver novos tempos recheados de privações. Ela troca às teclas do piano por um escovão e muita faxina. O emprego de faxineira na faculdade de medicina chega após duras conquistas, depois de alguns poucos amigos de seu pai - considerado louco e banido de Londres – ter se apiedado de sua situação.


“A sociedade londrina não era gentil com a filha de um louco. Muito menos no caso da órfã de um pai louco. Meu pai fora o fisiologista mais celebre da Inglaterra” pag. 27


O relato é sempre tenebroso, sombrio, inquietante e cheio de figuras estranhas, mesmo no Centro da Inglaterra. Em meio a salas com estudantes, médicos, professores ou defuntos há tempo para um assédio. E, claro, nossa ninfeta é mais que uma simples ‘ladie’, tem fibra, garra e coragem e, escapa audaciosamente de seu algoz.  


“ Enfiei a lâmina da espátula na pele pálida do Dr. Hastings até sentir a ponta do tendão flexor que se ligava ao indicador”. Pag. 57


Mas Juliet não perde por esperar, seu passado reaparece como um sopro, em meio à névoa de uma úmida madrugada londrina. A partir de um susto a jovem tem o pressentimento que seu pai ainda está vivo, afinal seu corpo nunca fora encontrado. E, para o livro ficar melhor, Megan Shepherd insere um triângulo amoroso onde tudo começa quando Juliet se depara com seu amigo de infância Montgomery. 


“O toque de Montgomery era eletrizante. Suas palavras sussurradas, ‘estou feliz por você ter vindo”, faziam com que eu me derretesse por dentro”. Pág. 79


Para concluir o triângulo amoroso surge o náufrago Edward Prince, um verdadeiro lorde. A atmosfera criada não poderia ser melhor, um romance em meio a muitos mistérios. Assim a mocinha vive de beijos com um e abraços com o outro, porém sem saber a realidade que a aguarda quando descobrir a verdade na vida de cada um de seus pretendentes.


“Um rapaz inteligente, marcado por cicatrizes e acometido pela loucura dos mares, e que jogava gamão muito mal: Edward Prince”. Pag 104


Juliet acaba sendo levada para uma ilha tropical para reencontrar seu pai. O ambiente da ilha é cercado de segredos e tensão. A sensação de desconforto estrangula cada personagem e o leitor embarca em cada ambiente com a curiosidade mais aguçada que o detetive inglês Sherlock Holmes ou o francês Hercule Poirot


“Meu pai não comia coelhos. Eles estavam ali para encontrar seu fim na lâmina afiada de um bisturi, para servir a prática da ciência.”. pag. 177


Então seria verdade que o seu pai continuava a realizar experiências com os animais. Então seria verdade tudo que a sociedade londrina praguejava contra o homem a qual Juliet fora acostuma a chamar, cariosamente, de pai. Afinal, todos os habitantes da ilha eram muito estranhos, todos aparentavam ser figuras grotescas, deformadas, horrendas e intrigantes. 
 

“Aqueles monstros e encararam com olhos arregalados e lábios que tremiam. Ali ele era o rei.” Pag. 225


Sim, todas os pensamentos de Julit estavam corretos, infelizmente.


“Agora, considere Balthazar por um momento – a voz do meu pai voltou a atrair minha atenção – Uma das minhas melhores criações...” Pag. 235 


Claro que senti certos desconfortos; primeiro a falta de data definida – que nos deixa um pouco sem chão, mas que faz aflorar a imaginação mais criativa; segundo, algo mais explicito para corroborar a criação de seres humanos a partir de animais como carneiro, cachorro, coelho, etc. O restante é justificável. 

Porém, nada destrói a surpresa agradável. A Filha do Louco foi uma leitura instigante e cheia de mistérios. Um livro que não conseguia parar de ler. Senti-me uma adolescente torcendo pela mocinha e morrendo de medo de certos personagens. Tive lampejos de visão com a história lendária de Dr Jekyll & Mr Hyde. A autora é divina na criação do desfecho, não poderia ser diferente, ela foi muito feliz e inteligente.

A Filha do Louco nos faz remeter a um filme ou a uma continuação. E para minha surpresa esse livro fará parte de uma trilogia, então esperemos os dois próximos, e que sejam tão bons quanto o primeiro.

Por Eleni Rosa

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