[RESENHA] "O Presente" de Cecelia Ahern



Sinopse:Todos os dias, Lou Suffern luta contra o tempo. Ele tem sempre dois lugares para ir, tem sempre duas coisas a fazer. Quando dorme, sonha com os planos do dia seguinte, e, quando está em casa, com a esposa e os filhos, sua mente está, invariavelmente, em outro lugar. Numa manhã de inverno, Lou encontra Gabe, um morador de rua, sentado no chão, sob o frio e a neve, do lado de fora do imenso edifício onde Suffern trabalha. Os dois começam a conversar, e Lou fica muito intrigado com as informações que recebe de Gabe; informações de alguém que tem observado uniões improváveis entre os colegas de trabalho de Lou, como os encontros da moça de sapatos Loubotin com o rapaz de sapatos pretos... Ansioso por saber de tudo e por manter o controle sobre tudo, Lou entende que seria bom ter Gabe por perto — para ajudá-lo a desmascarar associações que se formam fora de suas vistas — e lhe oferece um emprego. Mas logo o executivo arrepende-se de ajudar Gabe: sua presença o perturba. O ex-mendigo parece estar em dois lugares ao mesmo tempo, e, além disso, Gabe lhe fala umas coisas muito incomuns, como se soubesse do que não deveria saber... Quando começa a entender quem é realmente Gabe, e o que ele faz em sua vida, o executivo percebe que passará pela mais dura das provações. Esta história é sobre uma pessoa que descobre quem é. Sobre uma pessoa cujo interior é revelado a todos que a estimam. E todos são revelados a ela. No momento certo.

Resenha: Sim, eu poderia intitular essa resenha como... Hum...de repente um subtítulo cairia melhor. Então colocaria abaixo do título: “Por que não li antes?”  Essa frase curta tem uma longa história, de meses. Em dezembro recebi meus primeiros livros para resenhar. Uma tarefa inovadora e difícil, pois, como já relatei, costumo ler apenas o que gosto, o que me interessa e nada de obrigatoriedade.

Assim, arrependo-me de ter julgado errado...
Arrependo-me de não ter lido ‘O Presente’ antes...
Arrependo-me...simplesmente.

Tudo bem, minha primeira resenha demonstrou minha predileção por gatos... mas ‘O Presente’ seria um livro para ser lido primeiro, pois dos três foi a melhor leitura...uma leitura ‘natalina’...um ótimo presente de Natal.

De repente, e como diria Vinícius, “não mais que de repente”... alguém pode destilar um veneno e jogar ao vento frases como: “O Presente é um livro clichê, próprio para pegar os tolos em épocas emotivas, um verdadeiro xeque mate do mundo capitalista.

Mas ‘O Presente’ é especial. Confesso que sou emotiva e adoro histórias com uma lição, com uma moral. Adoro a superação. Amo quando o oculto é exposto e é possível desvendar os mistérios da alma. 

O livro começa com a prisão de um garoto que faz um peru de Natal invadir a casa de sua família pela janela, estilhaçando vidros para os quatro cantos da sala, isso logo na véspera do dia mais importante para os cristãos – Natal, claro.

Apesar da inusitada invasão, a história é uma meta-história. O policial que prende o menino do peru, no intuito de lhe dar uma lição, começa a lhe contar um fato recente, muito recente. 
Num dia frio, semanas antes do dia de Natal, um executivo bem sucedido entrega um copo de café a um mendigo instalado próximo ao prédio de seu escritório. E no ‘papo vem’, ‘papo vai’...eles embarcam em uma conversa muito interessante que o Sr Lou Suffern, aquele homem alto, elegante, porém sem tempo e com pensamentos apenas para suas metas e objetivos da empresa, nunca imaginaria que a curiosidade, a vontade de controlar tudo e saber de informações importantes o levaria a tamanho interesse por um... um misero sem teto - Gabe.

“- Gostaria de saber por que eles chegaram tão cedo. – Lou olhou para Gabe como se ele tivesse poderes especiais.
- Receio que não posso ajudá-lo com isso, mas eles almoçaram juntos semana passada. Ou, pelo menos, saíram do prédio na hora em que a maioria das pessoas almoça...”. pág. 38

Depois de um bom tempo pensado na conversa intrigante que teve com Gabe e em uma estratégia em como ele poderia ajudá-lo, principalmente em saber o que ocorria em seu escritório. Depois de muito pensar Lou teve um insite:

“- Quer um emprego? – perguntou Lou, confiante, mas a frase soou baixa e submissa, pois metade do som foi levado pelo vento...” pág.59

Mas que todos não se enganem, Lou não fez uma boa ação a Gabe, mas sim a si mesmo.
A história segue com agruras vividas por seu personagem principal e suas dúvidas e despreparo para  viver a sua vida com a família; pai, mãe, irmãos, mulher e filhos. Os dias passam, mas Lou simplesmente não enxerga o essencial.

“Ruth passou o dia inteiro lidando com a empolgação incontrolável de Lucy, que foi canalizada de todas as maneiras, positivas e negativas...mas tarde teve que lidar com a irritação e as lágrimas de Lucy, que se recusava a entrar no palco antes que o pai chegasse.”  pág. 137

Afinal, o que ocorrerá com Lou, afinal quem é Gabe? Por favor, alguém poderia explicar o que tem haver o menino do peru com toda essa história? Bem para isso o leitor terá que confiar em Gabe, em Lou e na narrativa jesuítica do policial...
No fundo teremos que ir mais fundo e decifrar o que esta história linda quer dizer..como disse gabe:

“- Por que eu deveria confiar em você?
- Considere isso um presente. – gabe repetiu as palavras que Lou lhe dissera há alguns dias.
O presente de Gabe e as palavras repetidas causaram arrepios em Lou Suffern.”

A autora, Cecelia Ahern, simplesmente surfa por frases e parágrafos nos deliciando, fazendo-nos degustar de um prazer maravilhoso: uma boa escrita. Simplesmente tudo flui, desperta curiosidade e nos faz ficar mais próximos à crítica deste mundo louco do corre-corre empresarial, do pensamento de vencedor e/ou perdedor, das descargas elétricas que cada corpo recebe quando alguma coisa foge ao controle ou daquele horário que não conseguimos cumprir, o compromisso que não é permitido descartar.

Simplesmente prazeroso quando o assunto envolve um mistério, a vida, a morte o humano... o ser humano do século XXI, tão envolto ao seu umbigo, tão associado a busca por sucesso, riqueza, poder que, esquece do outro, do mais próximo e o outro mais distante deixa de existir.

A História de Lou e Gabe por quase todas as 320 páginas me remeteu a uma grande tela, eu só imaginava que poderia virar um filme e que seria lindo.
Não posso escrever mais, só posso dizer que é um livro humano, para ser lido com a sensibilidade natalina, principalmente quando os aspectos dessa data andam tão raros e a densidade que deveria ser presente torna-se cada vez menos encorpada, cada vez mais rasa.

PS. O final é surpreendente, Cecelia Ahern consegue fugir a estereótipos literários. 

Eleni Rosa

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