[DIVULGAIL] “A luxuosa edição de ‘Os companheiros do crepúsculo’ repete a qualidade que vem sendo uma constante na Nemo”


1Audaci Junior, no Universo HQ

Atualmente, a banalidade de classificar instantaneamente uma obra como “prima” ou “clássica” remete a modismos, sofismas e irresponsabilidades sobre a importância de tal trabalho para a arte em si.

Afinal, o que é uma obra-prima?

A vigília é o estado entre o sono e o despertar. O fim de uma era e o começo de outra utilizando personagens como símbolos é o panorama traçado pelo francês François Bourgeon na série Os companheiros do crepúsculo, que ganha pela primeira vez uma luxuosa versão brasileira, depois de quase 30 anos da sua publicação original.

Em um único volume, a edição traz os três álbuns da saga, que já tinham sido lançadas entre 1986 e 1990 em Portugal pela Meribérica/Liber, há muito tempo esgotados: O sortilégio do bosque das brumas, Os olhos de estanho da Cidade Glauca e O último canto das Malaterre.

No período da Guerra dos Cem Anos (1337-1453), o conflito histórico entre franceses e ingleses, o leitor é apresentado aos “companheiros”: Mariotte, uma jovem ruiva criada por sua avó feiticeira e, por consequência, instruída pelas crenças ancestrais por meio da oralidade e hostilizada pelos aldeões do local onde nasceu, o tempestivo Anicet e o cavaleiro que carrega nos seus ombros a culpa pela morte da única mulher que o amou.

As duas primeiras partes são narradas com base nos sonhos dos protagonistas. Quando eles são capturados por duendes em O sortilégio do bosque das brumas, o cavaleiro é obrigado a caçar uma criatura que atormenta os pequenos seres. Imaginando estar dormindo, o personagem encara o desafio.

Em Os olhos de estanho da Cidade Glauca, a altiva figura desfigurada, o rabugento escudeiro e a ruiva se juntam a um menestrel e a uma morena que também foi criada por uma avó feiticeira para ajudar dois duendes exilados em sua guerra contra criaturas monstruosas obedientes à força negra chamadas de Dhuards.

Já no derradeiro O último canto das Malaterre, o cavaleiro descobre toda a verdade sobre a linhagem da amada morta, que pertencia a uma dinastia de mulheres descendentes de sereias, personificações das forças que regem o mundo: o branco, o vermelho e o negro, que foram condenadas ao esquecimento devido à imposição do cristianismo.

Em uma narrativa novelesca, a obra de Bourgeon mostra a transição entre as religiões, em que o cristianismo sobrepujou, por meio do fogo inquisidor, as crenças ancestrais que construíram o espírito da Idade Média e foram transformadas em “lendas” e “mitos”.

A História com “H” maiúsculo sempre foi construída sob a perspectiva do “vencedor”, tornando-se a verdade majoritária. Em determinado momento da HQ, um monge fala: “A lenda… É o que nos resta da verdade de ontem, quando elas passam pelo crivo das verdades de hoje”.

O que é tratado em Os companheiros do crepúsculo é uma espécie de mudança do inconsciente coletivo, a camada mais profunda da psique humana não derivada das experiências individuais, de acordo com a corrente junguiana.

As formas de crenças dependem das circunstâncias existenciais, culturais e pessoais. Tais arquétipos, como elementos estruturais e formadores do inconsciente, dão origem tanto às fantasias individuais quanto às mitologias de um povo.

Nas duas primeiras partes do álbum, o autor coloca o universo onírico como o cenário para extravasar essas “imagens primordiais”. Os duendes amarelos ou os opressores Dhuards refletem esses arquétipos crepusculares.

Assim, as fronteiras entre as tradições célticas e as cristãs são emaranhadas. Tanto que na terceira parte (a mais volumosa), um personagem diz que os milagres de Merlin – repassados hereditariamente pela oralidade – são tão poderosos quanto os de Jesus Cristo.

Bourgeon não se preocupa em ser didático ou ter uma narrativa linear, vide a divisão temporal de dois momentos alternados no mesmo espaço presente no segundo tomo, em que o autor mostra o total domínio de causa e consequência separadas apenas pelas calhas da diagramação. Uma aula de narrativa complexa.
Constantemente se observa o simbolismo pontuado pelas três forças que orquestram o mundo. O branco simboliza a alma e pureza, o negro é a morte e destruição e o vermelho encarna a vida e a paixão.

Essas trindades se manifestam de várias formas. Podem ser representados nos sentimentos, nas consequências da viagem do trio ou até pelos cabelos de Mariotte e de outras personagens como a loira Blanche (em francês, “branca”), o amor do cavaleiro.

Um espetáculo à parte é a arte de Bourgeon. Entre uma minuciosa e detalhada pesquisa iconográfica (o autor, formado como artista de vitrais, também cria em pormenores maquetes e modela personagens em 3D para servir de base nos seus trabalhos), o álbum carrega em simbolismos e complexidade a reconstrução do final de uma era, que “despertava” seu inconsciente coletivo para a Idade Moderna.

Os pormenores das ambientações arquitetônicas e paisagísticas de sua aventura, bem como o nível de detalhes de vestimentas, acessórios e armamentos impressionam pelo realismo. Tudo com toques de violência com um velado – mas bem presente – erotismo por meio de suas personagens femininas.

Quem quiser se aprofundar na obra de Bourgeon, em 1992 foi lançado, pela Casterman, o livro inédito no Brasil Dans le sillage des sirenes (No caminho das sereias, em tradução livre), de Michel Thiebaut, um estudo detalhado sobre toda a pesquisa em cima de Os companheiros do crepúsculo. Locais históricos, fotografias, obras de arte e manuscritos que inspiraram e serviram de base para os álbuns.

A luxuosa edição da Nemo repete a qualidade que vem sendo uma constante na editora, com um formatão europeu (24 x 32 cm) em capa dura e ótima impressão em um papel couché de boa gramatura. O único “porém” é não ter nenhum texto introdutório, apresentação da obra ou referência biográfica do artista, o que viria a engrandecer ainda mais o inédito volume.

Um destaque é a tradução de Fernando Scheibe, que manteve o clima culto da época, mas equilibrou as expressões menos usuais da língua em comparação às edições lusitanas da Meribérica/Liber, deixando a leitura mais fluída.

Fica também a expectativa para a editora se interessar em publicar outras obras de igual importância do autor, como as séries Os passageiros do vento, uma epopeia marítima passada no Século 18, e a ficção científica O ciclo de Cyann (este último com a colaboração de Claude Lacroix no roteiro).
Enfim, o que é uma obra-prima?

Os companheiros do crepúsculo de François Bourgeon responde essa pergunta em todos os seus quesitos e não deve a nenhuma outra obra que aborda o assunto.

Um trabalho que, tranquilamente, é prazeroso a cada nova leitura, suportando o peso inexorável do tempo. Possivelmente, resistirá às transições e finais de cada era como uma reflexão sobre a “passagem” entre a Idade Média e a Moderna.

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