[CINEAIL - OSCAR 2014] "A Grande Beleza" de Paolo Sorrentino, Por Eleni Rosa

Não recomendado para menores de 14 anos 

Sinopse: Em Roma, durante o verão, o escritor Jap Gambardella (Toni Servillo) reflete sobre sua vida. Ele tem 65 anos de idade, e desde o grande sucesso do romance "O Aparelho Humano", escrito décadas atrás, ele não concluiu nenhum outro livro. Desde então, a vida de Jep se passa entre as festas da alta sociedade, os luxos e privilégios de sua fama. Quando se lembra de um amor inocente da sua juventude, Jep cria forças para mudar sua vida, e talvez voltar a escrever.

Lançamento  
DiretorPaolo Sorrentino
ElencoToni Servillo, Carlo Verdone, Sabrina Ferilli
GêneroComédia , Drama
NacionalidadeItália , França

Resenha: O filme Italiano, de Paolo Sorrentino, foi vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro/2014. A fita veio elogiada desde suas primeiras exibições em festivais. Em Cannes o filme foi interpretado como uma releitura do Clássico de Fellini, “A Doce Vida”, uma atualização da Itália dos anos 60.
A película tem início ao som de canto gregoriano ao fundo, enquanto a câmera percorre um cenário histórico, com uma linda paisagem. Bem-vindo, você está em Roma. De repente a câmera se volta para um grupo de turistas que é surpreendido quando um de seus membros morre enquanto fotografa uma vista deslumbrante. No mesmo instante há um corte. Entramos em uma balada com música eletrônica, tudo proporcionado pelo protagonista Jep Gambardella. E podemos afirmar: Como efêmera é a vida.


A história resume, em alguns longos minutos, a vida de Jep Gambardella, vivido por Toni Servilho, um escritor de um único livro, que se tornou best seller, e repórter de uma revista Cult, tipo a brasileira ‘Bravo’.
Aos 65 anos, Jep resolve fazer um balanço de sua vida: a importância de sua existência, seus amores, seu trabalho, seus amigos e tudo isso a custa do mundanismo, com um grau etílico da embriaguez social italiana - no estilo sexo, drogas e “rockand roll”. Nesse turbilhão de sensações ele descobre que não deve perder tempo fazendo coisas que não gosta. E questiona...e revive.
Ao longo da película a La Fellini, perguntas são sutilmente levantadas à cerca de questões referentes à beleza, a saturação do estado das coisas, a superficialidade no mundo das artes e a inconsistência do artista. O filme não esgota as possibilidades de referências no nicho que escolheu como foco de sua crítica. O sarcasmo vai da religião, literatura a vida contemporânea.
No campo da pintura, o que é arte hoje? Para elucidar a resposta o filme mostra a cena do nascimento de um quadro a partir da ira de uma menina de uns 7 anos, explorada pelos pais, que joga latas de tintas sobre uma tela e é aplaudida por admiradores e críticos de arte. Mas jogar tintas em uma tela é arte?
Voltando ao tempo e meu mundo acadêmico, lembro-me de Marcel Duchanp responsável pelo conceito de ready made que, entre suas obras, brindou a sociedade com um aparelho sanitário de louça, idêntico aos mictórios masculinos. Andy Warholreinventa a pop art com a reprodução mecânica e seus múltiplos serigráficos com temas do cotidiano e artigos de consumo, como as reproduções das latas de sopas Campbell e a garrafa de Coca-Cola, além de rostos de figuras conhecidas como Marilyn MonroeBrigitte Bardot e símbolos icônicos da história da arte, como Mona Lisa. Afinal, o que é arte?
Nas artes cênicas o público é surpreendido com uma performance de uma artista que corre desnuda sobre um palco e ao final da apresentação bate a cabeça violentamente em um muro e assim termina a encenação. (?)
Na literatura, no mundo de William Shakespeare e do nosso Machado de Assis ou mais atual Jorge Amado, a fita nos mostra a escritora que vive de roteiros de reality shows. Na religião o controverso encontro do escritor Jep com o cardeal cotado para o próximo papado, mas que seu pensamento não se aprofunda no mundo sacro, da fé, dos santos e dos dogmas da igreja católica, mas da culinária.
Jep leva uma vida contemporânea  ditada pelo supérfluo, pelas festas sem sentidos regadas a muita bebida e cocaína. O filme vai fundo na desilusão. Um grande painel do superficial, belo e vazio que é o mundo hoje. E sobra crítica até para a Itália.
A história seduz – uma crônica da solidão de um homem que não se situa no mundo de hoje. Paolo Sorrentino nos apresenta um cinema malicioso, questionador e de grande impacto visual. Viajamos por museus, obras consagradas, esculturas, pinturas, arquitetura e a própria paisagem romana... Fotografias extasiantes.
O filme é uma válida aula em vários sentidos. Justamente merecedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro/2014. Elogios completamente merecidos. Se o conterrâneo Fellini ajudou? Não sabemos, porém é muito bom degustar uma nova  “A Doce Vida”, no século XXI.
Mas afinal, o que será a arte?
“É difícil delimitar a linha que separa os objetos artísticos dos não artísticos”.
“A obra é engendrada por funções sociais e econômicas precisas – o papel elitizante da arte, a afirmação de classe.”
“Buscamos a arte pelo prazer que nos causa”.  (Autor: Jore Coli)
Eleni Rosa

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