[CINEAIL] "Serra Pelada", de Heitor Dhalia

Cartaz oficial
(Globo Filmes)
Sinopse: Uma jornada ao maior garimpo a céu aberto da Idade Contemporânea. Os amigos Juliano e Joaquim deixam o Rio de Janeiro em busca do sonho do ouro. O ano é 1978. Os dois chegam a Floresta Amazônica como tantos outros milhares de homens chegaram. Repletos de sonhos e ilusões. Mas a vida no garimpo muda tudo. A obsessão pela riqueza e pelo poder os destrói. Juliano se torna um gangster. Joaquim deixa todos os seus valores para trás. Uma história sobre a febre do ouro, sobre ganância e violência. Sobre uma grande amizade e seu fim.

Direção: Heitor Dhalia
Roteiro: Vera Egito, Heitor Dhalia
Elenco: Juliano Cazarré, Júlio Andrade, Sophie Charlotte, Wagner Moura e Matheus Nachtergaele


Resenha: Eu tinha apenas 12 anos de idade quando surgiu na tela da minha TV, ainda em preto e branco, as primeiras notícias do garimpo de Serra Pelada. Eram chamadas trazidas pela voz de Cid Moreira e Sérgio Chapelin, do Jornal Nacional, direto para todo o país.

Assim, falar do filme é reviver um fato histórico brasileiro e ao mesmo tempo poder revisitar o que as lentes do fotógrafo Sebastião Salgado captaram e jogaram as imagens para a visibilidade do mundo todo, lógico que só descobri Salgado, esse fotógrafo fantástico, bem mais tarde. Entendendo o período que ocorreu o fenômeno do maior garimpo a céu aberto do mundo: 1980, considerada a década perdida, pois é referência à estagnação econômica na América Latina; menor crescimento econômico, retração industrial, volatilidade de mercados, baixo crescimento do PIB e, no Brasil, fim do milagre econômico iniciado em 1970.

O país vivia com o fantasma do desemprego, índice alto de inflação e aumento da dívida externa. E continuávamos no período da ditadura militar, tendo no comando o General João Batista Figueiredo. Unindo essa pressão, com o desespero por melhores dias, é possível imaginar porque a descoberta de ouro no estado do Pará – com anúncio oficial da existência das jazidas em 1979 - levou milhares de migrantes a utopia da descoberta do metal precioso. Em duas semanas o local já abrigava garimpeiros de todo o Brasil atrás do sonho der ser milionário. A fama do garimpo virou fenômeno midiático que até filme dos Trapalhões foi rodado no local. Vamos ao que interessa...


Este filme conta a história do garimpo a partir da união de dois amigos, Juliano (Juliano Cazarré) e Joaquim (Júlio Andrade), que saem de São Paulo nos anos de 1980 para tentar a sorte no interior do Brasil.

Serra Pelada
realmente mexeu, e mexe, com a imaginação popular e o roteiro é bem alinhavado com realidade, ficção, toques de romance, uma boa mão de ambição, ganância, ação e aborda o psicológico humano, quando mostra a força do poder sem limites. O que os dois amigos pretendiam era muito simples: garimpar, ficar rico e voltar para São Paulo. A dupla é marcada por estereótipos bem definidos Juliano é o bronco, esquentado e resolve tudo na base da força. Joaquim, professor, frágil, com grande senso de justiça que deixa mulher e filho em Sampa pensando em conquistar uma melhor vida para a família. Chegando ao garimpo, no meio do nada, em plena mata amazônica, os dois descobrem que o Brasil todo pretende ficar rico – são mais de 30 mil homens no frenético sobe e desce de barrancos, nas escavações oníricas do metal precioso.


Homens sujos de lama, terra, esquálidos, cansados, mas com muita fome de mudança de vida. E naquele pedaço de terra desprovido de valores civilizatórios, onde brota os piores sentimentos do ser humano, cada dia que passa pode torna-lo um ser mais primitivo, piorando sua condição de homo sapiens. Destaque para Cazarré que leva o filme nas costas. A grande revelação é Sophie Charlotte, com uma estreia no cinema de tirar o fôlego, com cenas bem tórridas de deixar babando muito marmanjo. Matheus Nachtergaele, como sempre é primoroso em sua atuação. Mas de tirar o chapéu está Wagner Moura, com uma participação especial, porém rouba a cena quando aparece na telona, seu personagem é construído com toque de humor, sarcasmo e frieza de matador. O filme tem vários ingredientes: prostitutas, bandidos, mocinhos - foco social - quando aborda o início da AIDS e a discriminação contra gays, a miséria, corrupção e luta pela sobrevivência...um pequeno panfleto de gangster.

Serra Pelada lembra os fascinantes trailers de máfia. Há uma família de poderosos ‘capos’ que controlam o grande negócio do ouro (pode ser observado na cena no encontro dos bandidos à mesa, com Juliano em foco) e, como bons mafiosos, o negócio não se resume apenas ao ouro pois há ramificações nas drogas, no contrabando de armas e muita corrupção que, claro, a polícia está envolvida até o pescoço. A lei é clara, manda quem pode e obedece quem tem juízo.
Wagner Moura: irreconhecível!
Serra Pelada também lembra um faroeste com muito tiroteio. Uma das cenas marcantes está bem no finalzinho, contida no olhar de Juliano, na possibilidade de virar o jogo - situação comum para aqueles que se acostumaram a conseguir tudo, quando tem ao deleite o vil metal.

Ah, podem falar o que quiserem, que venham os estudos sobre a ‘cosmética da fome’, mas não achei o filme apelativo ou aproveitador, simplesmente realista. E essa é a realidade brasileira: é seca, favela, funk, forró, entre muitas outras coisas. Assim foi com Cidade de Deus, assim foi Central do Brasil. Quero ver alguém falar do livro “O Cortiço” levando para essa linha... ou Capitães de Areia!

Por isso afirmo: vale a pena assistir Serra Pelada, sim! (Eleni Rosa)

Trailer

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