[RESENHA] "O Lado Bom da Vida", de Matthew Quick

Capa da edição nacional
(Ed. Intrínseca)
Sinopse: Pat Peoples, um ex-professor na casa dos 30 anos, acaba de sair de uma instituição psiquiátrica. Convencido de que passou apenas alguns meses naquele "lugar ruim", Pat não se lembra do que o fez ir para lá. O que sabe é que Nikki, sua esposa, quis que ficasse um "tempo separado". Tentando recompor o quebra-cabeça de sua memória, agora repleta de lapsos, ele ainda precisa enfrentar uma realidade que não parece muito promissora. Com o pai se recusando a falar com ele, a esposa negando-se a aceitar revê-lo e os amigos evitando comentar o que aconteceu antes de sua internação, Pat, agora viciado em exercícios físicos, está determinado a reorganizar as coisas e reconquistar as coisas e reconquistar sua mulher, porque acredita em finais felizes e no lado bom da vida. Uma história comovente e encantadora, de um homem que não desiste da felicidade, do amor e de ter esperança, que acabou virando um filme ganhador de um Oscar (Melhor Atriz para Jennifer Lawrence).

O Lado Bom da Vida, de Matthew Quick 
258 páginas | Ed. Intrínseca | Compre aqui

Trecho:
"- (...) Você nunca percebeu que a vida é como um filme? 
- Não. Conte para mim. 
- Bem, a pessoa tem aventuras. Todas começam com encrencas, mas logo você assume seus problemas e se torna uma pessoa melhor, trabalhando duro, que é o que fertiliza o final feliz e permite que ele floresça; como o final de todos os filmes de Rocky, Rudy, Karatê Kid, as trilogias de Star Wars e Indiana Jones e Os Goonies, que são os meus filmes favoritos, embora eu tenha jurado me abster de filmes até a volta de Nikki, porque agora minha vida é o filme  a que vou assistir e bem, está sempre passando. Além disso, eu sei que está quase na hora do final feliz, quando Nikki vai voltar, porque progredi muito com a ajuda do fisiculturismo, dos medicamentos e da terapia. 
- Ah, entendi - diz o Dr. Patel em meio a um sorriso. - Eu também gosto de finais felizes, Pat. 
- Então você concorda comigo. Acha que terei minha mulher de volta? 
- O tempo dirá - diz o Dr. Patel, e vejo na hora que Cliff e eu vamos nos dar bem, porque ele não prega o pessimismo como o Dr. Thimbers e o pessoal do lugar ruim; Cliff não diz que devo encarar o que ele acha que é minha realidade."

Resenha:
Quem já teve qualquer decepção amorosa, já deve ter pensado que a vingança "perfeita" para quem o abandonou seria a "derrota completa": o relacionamento seguinte não daria certo, o emprego torna-se cada vez pior e até mesmo a beleza que outrora ostentava já não se faz presente. Mas ao ver fotos dessa mesma pessoa em redes sociais, ela está sorrindo e tudo vai muito bem.

(Até porque não existe tristeza em rede social, não é mesmo?)

Nosso "heroi" Pat Peoples está separado da esposa e acaba de sair de uma instituição para perturbados mentais. Embora ele não saiba ao certo quanto tempo passou lá, quer ser um homem melhor para poder reconquistar a amada: dedica-se de forma quase adicta aos exercícios físicos para ganhar massa muscular e perder toda a gordura que possuía antes. Além, claro, de estar tentando "ser gentil ao invés de ter razão".

Todos os dias, repete uma rotina autoimposta para alcançar seu objetivo porque acredita piamente que nossas vidas são filmes dirigidos por Deus (!) que sempre têm final feliz. Não é necessário uma análise muito profunda para perceber que, além de Pat ser um alienado que não consegue diferenciar a realidade daquilo que acredita, alguma está muito errada nessa história.

Enquanto nosso heroi não consegue descobrir porque tem ataques de pânico à simples menção do nome do saxofonista Kenny G - tanto que precisa vocalizar uma única nota para manter-se calmo -, quanto tempo passou no "lugar ruim" (como ele chama a instituição para mentalmente perturbados) e qual o crime que cometeu para ter sido trancado lá, aparece Tiffany em sua vida.

Antes que alguém pense que uma grande história de amor se inicia por aí, saiba que ela também teve problemas de ordem psíquicas e detesta-o logo de cara e nem o encontro arranjado por sua irmã para que os dois se juntem dá certo por que... Bem, porque Pat ainda ama sua esposa. Curiosamente, numa manhã quando Pat inicia sua corrida, Tiffany vai junto. Sem falar nada ou mesmo ter sido convidada. Mesmo quando Pat insiste que não gosta de correr em duplas, ela se mantém afastada apenas para seguí-lo no mesmo trajeto. Ela fala pouco quando ele a chama para sair - para comer cereal! - mas sempre está presente nos passeios da família quando Pat é convidado...

Paralelo a isso, vemos a tentativa quase desesperada do protagonista de relacionar-se com o próprio pai, uma vez que este só se dirige a ele quando há jogo de futebol americano de seu time favorito... A busca por aceitação de Pat pelo pai é dolorosa (e quase infantil, até certo ponto) e tudo é descrito sem pieguice ou apelos emocionais mas sim como se fosse a vida real. O texto de Matthew Quick cativa logo ao primeiro capítulo pois os personagens tem um pé na realidade que a grande maioria dos livros do gênero não possui e isso é mesmo o grande diferencial da obra.

Seu texto é enxuto e, mesmo sem querer, acabamos torcendo por Pat e curiosos para descobrir se, afinal de contas, ele reconquistará ou não sua esposa...

Mas o livro tem um grande problema. Embora a gente acabe descobrindo que isso faz parte da trama de forma crucial, os trechos que descrevem a torcida de futebol americano, a espera pelos jogos e tudo o que envolve o esporte que Pat e seus amigos curtem causa estranheza e torna o texto um tanto inacessível a quem não gosta ou nunca assistiu nada sobre este assunto essencialmente norteamericano.

Entendo que isso é algo inerente à cultura do país deles mas é extremamente tedioso de ler capítulos inteiros sobre como é esperar para assistir um jogo, descritos ao extremo, de forma nada atraente ao leitor.

Quando chegamos ao fim da história - ou onde ela se encerra para nós -, descobrimos todos os mistérios envolvendo Pat, Tiffany e "assistimos" a um emocionante número de dança moderna. Vale a pena passar por tudo ao lado dos personagens e descobrir que a melhor declaração de amor é aquela que nos surpreende e não aquela que desejamos de forma egoísta e vingativa. A isso, Pat Peoples chama de "enxergar o sol por cima das nuvens". Esse é o real "lado bom da vida". E por isso vale a pena viver. Sempre.

Kal J. Moon ia terminar esta resenha com um ótimo número de dança moderna mas não tinha par. Quem sabe da próxima vez...?
Matthew Quick, escritor

Sobre o Autor


Matthew Quick era professor na Filadélfia, mas decidiu largar tudo e, depois de conhecer a Amazônia peruana, viajar o caminho até o fundo nevado do Grand Canyon, reviu seus valores e, enfim, passou a dedicar todo seu tempo à escrita. Ele, então, fez MFA em Escrita Criativa pelo Goddard College e voltou à Filadélfia, onde mora com a esposa. Quick é autor de três romances antes de "O Lado Bom da Vida", que lhe renderam críticas elogiosas e menções honrosas importantes, entre as quais destaca-se a do PEN / Hemingway Award.


Trilha sonora: "Songbird", Kenny G

5 comentários :

  1. Ah, esse livro é lindo! Sou apaixonada... Amei o livro e o filme, mas achei um bem diferente do outro!

    Bjs

    www.universodosleitores.blogspot.com.br

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  2. Infelizmente, ainda não assisti ao filme e fiquei até com receio quando vi o trailer... Mas é aquele negócio: filmes adaptados não são feitos para o mesmo público dos livros mas sim para o público em geral... Não sei se concordo muito com isso mas é assim que funciona em Hollywood. Obrigado pela visita! o/ (KJM)

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  3. Oi adorei.. muito obrigado, me fez se interessar pelo livro....mas vc já leu o livro reverso escrito pelo autor Darlei... se trata de um livro arrebatador...ele coloca em cheque os maiores dogmas religiosos de todos os tempos.....e ainda inverte de forma brutal as teorias cientificas usando dilemas fantásticos; Além de revelar verdades sobre Jesus jamais mencionados na história.....acesse o link da livraria cultura e digite reverso...a capa do livro é linda ela traz o universo de fundo..abraços. www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?

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  4. Ele é muito mais completo do livro que o filme, mas isso não significa que foi realmente bom. A história eu achei muito bom, bem executar um script, engraçado e inteligente. Abotoaduras entre Jennifer Lawrence e Bradley Cooper me espanta, posso dizer que é um dos melhores filmes drama Cooper. Atuações ótimas até mesmo dos coadjuvantes Robert De Niro e Jacki Weaver estão ótimos. Uma ótima historia, madura, diferente de todas essas comedias dramáticas/românticas. Vale muito apena acompanhar.

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    Respostas
    1. Então, Sofia... Se não fossem as partes referentes ao futebol norte-americano, acharia mesmo o livro bem superior por conta de como a história foi montada... Mas claro que é somente minha opinião e não, necessariamente, "A" verdade.

      Que bom que tenha lido minha resenha aqui no AIL! Volte mais vezes, ok?

      Abração carioca!

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