[RESENHA] "Vermelho", de Jorge Takla

Cartaz oficial
Sinopse: A peça conta uma passagem importante da vida do artista plástico Marcus Rothkomitz, judeu nascido na Letônia em 1903 que migrou aos Estados Unidos ainda criança, adquiriu a cidadania americana e para seu lançamento a fama virou Mark Rothko, que perpetuou sua arte como pintor do expressionismo abstrato juntamente com Jackson Pollock, Willem de Kooning, Barnett Newman, Franz Kline, dentre outros. Esta trupe emergiu logo após a Segunda Guerra Mundial e alçou prestígio e reconhecimentos internacionais.


Resenha: Vermelho - mais forte e brilhante impossível!

De repente, pode haver uma breve confusão. Afinal, entramos num teatro ou num ateliê?

No palco, espalhadas em locais estratégicos, encontram-se telas enormes de cores fortes e formas abstratas. Há uma grande mesa à direita com inúmeros materiais: tintas, palhetas, pincéis, telas em branco. Do lado esquerdo, uma poltrona, um rádio, bebidas e, no centro de tudo isso... Antonio Fagundes, na pele do pintor Mark Rothko.

Depois de uma ótima experiência em “A Comédia da Arte”, “Grey Gardens” e “Corte Seco”, mais uma peça brilhante, diria, a melhor. Essa nos coloca diante de duas grandes artes, ‘Pintura’ e ‘Representação’ (teatro), um super encontro, trazendo ao palco o convívio das duas estéticas. Simplesmente: ‘Bravo’!
Fagundes em cena
Vermelho é um texto de John Logan. Sua montagem no Brasil traz a iluminação de Ney Bonfante, com direção de Jorge Takla e atuações brilhantes de Bruno Fagundes (filho) - interpretando o ajudante Kan - e Antonio Fagundes (pai) – um maravilhoso Mark Rothko.

No palco, a história se restringe ao final da década de 1950 quando Rothko é convidado para revestir três paredes do restaurante ‘Four Seasons’ com seus murais – um luxuoso estabelecimento de Manhattan. Para tanto, o pintor ganharia a importância de US$ 35 mil, o que hoje se aproximaria a uns míseros US$ 2 milhões... Inimaginável.

O texto de Logan cria Kan, um fictício ajudante do pintor, já que não existem registros de que Kan realmente existiu na vida de Rothko. O jovem é incumbido de atividades como limpar pincéis, misturar pigmentos, aplicar a cor base sobre as telas e, claro, suportar o mau humor do mestre. O ajudante é o grande contraponto nos diálogos, questionamentos e fúria de Mark Rothko. A arte da convivência entre o velho e o novo.
Rothko e seu ajudante Kan (Bruno Fagundes)
Nas passagens da alquimia realizada na grande mesa, tanto pelo jovem rapaz quanto pelo próprio mestre, é possível remeter as cenas do filme ‘A Moça do Brinco de Pérola’ (2003), que conta a história do segundo grande pintor holandês Johannes Vermeer (1632 -1675) - depois de Rembrandt, claro - e apresenta  Colin Firth como Vermeer e Scarlett Johansson como a menina da pintura. No filme, há um meticuloso ritual na preparação de tintas, na mistura de pigmentos para formar texturas e na criação de cores diferenciadas. Assim também ocorre no palco. Porém, com um ar mais contemporâneo, nada romântico e, sim, visceral. Uma tela é pintada em pleno palco.

Os diálogos são sublimes. Pois no conflito interno vivido pelo pintor, em ter suas telas penduradas nas paredes de um restaurante, também somos agraciados com os questionamentos do que seria arte. Rothko defende a ‘destruição criativa’, afinal ‘como pode um novo mundo ser criado sem destruir boa parte do que viera antes?’, "não se pode fazer um omelete sem quebrar os ovos" etc. O pintor se vangloria ao afirmar que a sua arte destruiu o cubismo de Picasso. E menospreza Salvador Dalí que, segundo ele, “envelhecera mal e acomodara-se”.
Buscando perspectivas
Kan enfurece o mestre quando levanta a bandeira da Pop Art. Para Rothko, suas cores eram mais que cores. Eram - ou são - atrizes, intérpretes que buscam instigar o público. E, segundo ele, Pop Art, liderada por Andy Warhol, era simplesmente superficial, pertencentes a lacaios da cultura de massa. O pintor questiona o mundo da arte hoje e a visão do público. Ele levanta a hipótese que não entende pois “hoje todos gostam de tudo, é fácil gostar” – o que seria a banalização da arte.


Após as cortinas descerem e extensos minutos de aplausos o público do teatro Ginástico foi convidado por Rothko, digo, Antônio Fagundes para um bate-papo. Completamente ímpar. Fagundes está espetacular e Bruno, Fagundes filho, é uma grande surpresa. Infelizmente, Vermelho terminou a temporada no teatro Sesc Ginástico em 16/06/2013.

P.S.: Não permito-me contar mais sobre a peça pois vale viver o espetáculo. Vá à procura do local de sua próxima montagem porque esta peça é imprescindível para quem ama arte... (Eleni Rosa)

Trecho da peça "Vermelho"

1 comentários :

  1. Adorei seu blog! Seguindo, claro!
    Beijos
    Isa
    http://www.verbosdiversos.com/

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