[CINEBOOK] "Faroeste Caboclo", de René Sampaio

Cartaz oficial
Sinopse: Este filme adapta, de forma original, a canção de sucesso da banda Legião Urbana, contando a saga de amor e violência de João de Santo Cristo, Maria Lúcia e Jeremias na cidade de Brasilia / DF.


Resenha:
Imagine a fotografia de um sertão tão seco quanto um corte abrupto de uma cena. O retrato amarelo, manchado, sem valor de uma vida sofrida, sem expectativas de um menino em plena caatinga. A imagem perfeita, quase em preto e branco, fosca, rude, é plena. A sobrevivência de uma família, a escassez d’água, comida, chuva, sorte e as mortes vividas, sentidas, absorvidas por quem nasceu num mundo estéril.

A primeira perda vivida pelo menino focada na telona foi quando testemunhou, de longe, “quando com um tiro de soldado o pai morreu” e depois, mais crescido, presencia a morte da mãe, a morte da esperança – nos remetendo ao clássico da literatura brasileira Vidas Secas, de Graciliano Ramos (1938), que retrata as agruras do sertanejo no sertão nordestino.

Assim começa a saga de João do Santo Cristo, chamada aqui de "Faroeste Caboclo", primeiro filme do diretor René Sampaio.

"...ele ficou bestificado com a cidade..."
A película é uma adaptação à música de Renato Russo - vocalista da banda Legião Urbana - e estreia depois de décadas que, com certeza, muitos artistas, diretores, autores, roteiristas, alunos de jornalismo e cinema também imaginaram poder transportar para telona a letra de Renato.

Sampaio teve sorte - ou foi guiado pelas estrelas astrológicas em que Renato Russo acreditava (menção no filme ‘Somos Tão Jovens’ – biografia do artista lançada em 2013) - pois a escolha do ator Fabrício Boliveira (do seriado Suburbia) para viver João do Santo Cristo foi mais que certeira: foi um presente. A sorte do diretor continua porque Maria Lúcia, vivida por Isis Valverde, também é uma perfeição.

"...Maria Lúcia era uma menina linda..."
Completando o trio de protagonistas, vem Felipe Abib (Vai Que Dá Certo), que vive Jeremias, que não é tão certeiro mas demonstra empenho e tenta diferenciar. Como personagens ‘secundários’ estão Antonio Calloni - que interpreta divinamente um policial corrupto - e o saudoso ator e diretor Marcos Paulo (que faleceu em 2012) - senador, pai de Maria Lúcia .

E uma personagem central, que às vezes não é lembrada nos créditos mas é apresentada a cada instante nas fotografias, enquadramentos, imagens – no vazio, frio, pobre, rico, desumano, humano e questionável: Brasília, a cidade do Planalto Central. Um leque ímpar.

O diretor acerta ao fugir de estereótipos da década da ditadura pois seu foco é no drama e na trama do trio. Também descarta a mídia, as verdadeiras intenções de João em BSB (de acordo com a música) e usa a criatividade e licença poética para mostrar um belíssimo filme.

Como diz a letra, o filme mostra o ódio de João e o ‘não tenho nada a perder’, sem medo da morte e destemido, luta pelo que acredita. Na sequencia em que João enterra a mãe e faz suas malas, ele diz que é hora de cobrar algumas dívidas da vida e que há muitas cobranças a fazer – nesse momento, retorno à literatura e vou direto ao conto "O Cobrador", de Rubem Fonseca. Simplesmente perfeito. A sequência fecha com João matando o soldado que tirou a vida de seu pai e indo parar no tal reformatório, “onde aumentou seu ódio diante de tanto terror / Não entendia como a vida funcionava / Discriminação por causa da sua classe e sua cor”. Sim, nosso João é negro.

"...discriminação por causa de sua classe, sua cor..."

O protagonista sai do sertão em direção ao Planalto Central. O enquadramento com a entrada de João em Brasília é fascinante, à noite, a cidade grande, as luzes de Natal, mostra uma metrópole linda. O diretor traz uma Brasília setentista, quase anos 1980, o lugar de lugar nenhum.

Antonio Calloni no papel do policial corrupto

Fundada em 1960 e com os contrastes da bela arquitetura de Oscar Niemeyer das ricas Asas Norte e Sul em oposição à pobreza de Ceilândia, uma das maiores favelas da região. Mas para tanta beleza, Sampaio conta com a direção de arte de Tiago Marques Teixeira (Tropa de Elite 2).

Este foi o último filme do saudoso
ator e diretorMarcos Paulo

Nesta ilha que é BSB, o protagonista conhece o amor de sua vida, a solitária Maria Lúcia. Conhece também e seu arqui-rival, o traficante Jeremias, rico e filho de general, protegido pelo policial corrupto vivido por Calloni. Entre tiros, correrias, fugas, beijos, sangue, morte, amor, solidão, drogas, rock, vazio, corrupção, entre o ilicito e o permitido, certo e errado, tudo cruza a vida de cada personagem incluindo a cidade. E João entra no mundo do tráfico de drogas querendo sair para a carpintaria mas vendo a vida arrastá-lo ao submundo...

"Jeremias, maconheiro sem vergonha..."

Tratando-se de um faroeste, mesmo que ‘tupiniquim’. O diretor nos presenteia com alusões aos grandes filmes de bang-bang. É o enquadramento dos passos lentos de João ao subir a escada – pisadas de botas inconfundíveis. No ‘epilogo’, a pegada da câmera no confronto final, girando e mostrando os dois arqui-inimigos em um campo de terra batida, seca e pueril é perfeito. Claro que eu tinha que recordar do último faroeste visto nas telonas! Sim, é tanto sangue, tiros e mortes que eu lembrei de Django Livre, filme dirigido por Quentin Tarantino e estrelado por Jamie Foxx (o mocinho, negro e pobre) e Leonardo DiCaprio (o vilão, branco e rico). Tudo bem, é diferente mas é possível fazer alusão. E, infelizmente, o nosso filme, seguindo a letra da música, não reserva um final feliz para o mocinho...

"...agora, Santo Cristo era bandido..."

Implicitamente, sem levantar muito bandeiras, até diferenciando-se da música de Russo pela sutileza, o filme critica a corrupção policial, a farsa de Brasília, a falta de raízes no Planalto Central, a mão do poder e dos poderosos, a ausência dos olhares dos governantes para o sertão e a força do sistema em anular o ser humano. Sinceramente? Aplausos para René Sampaio e sua trupe. Sinto orgulho ao assistir a sétima arte brasileira sendo tratada com tanto profissionalismo, envolvimento, sensibilidade e entrega.

Lembrete: para quem está a fim de ouvir a música que é tema do filme terá que esperar a subida dos créditos. Claro que eu esperei... (Eleni Rosa)

Trailer Oficial

3 comentários :

  1. Ótima crítica, o filme é um dos melhores nacionais que vi nos ultimos anos e bem melhor que "somos tao jovens"...

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  2. Sem dúvida um dos filmes que eu ponto como o meu favorito. O elenco é um ponto a seu favor, a peste ator César Troncoso, que é o personagem que eu reconheço realzia.Ahora continuo vendo na O Hipnotizador uma nova série, uma produção que dentro de dias de sua criação já está dando muito o que fala.

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