[RESENHA] As Mulheres de Grey Gardens – O Musical

Uma peça cujo cerne só Freud explica. Com conflitos gerados entre mãe e filha. Ambição artística, dependência materna e a decadência da aristocracia norte-americana se confundem e convergem na trama. Sentimentos destrutivos são expostos juntamente com a baixa estima e o nível de ego exacerbado.

Qual é o assunto? “As Mulheres de Grey Gardens – O Musical”, um espetáculo imperdível.

Cartaz oficial
(Divulgação)
A história é verídica e não é nada simples pois debruça sobre o drama das excêntricas tia e prima da Jacqueline KennedyEdith Ewing Bouvier Beale e sua filha Edith Bouvier Beale. Já existiu montagem americana, documentário e filme sobre o assunto. Na película, brilharam as atrizes Drew Barrymore e Jessica Lange.

Tudo começa em meados dos anos 40, no apogeu da família, Soraya Ravenle vive Edith, a mãe de Edie Beale, interpretada por Carol Puntel. A família vive em uma mansão, em East Hampton, balneário próximo à Nova York. Com Edith, o marido e a filha primogênita pois os dois filhos mais novos, após a maioridade, já deram rumo na vida, bem longe das excentricidades da mãe, deixando a pobre Edie sofrer as consequências freudianas de uma relação muito conturbada. São dois atos e assim quando se apagam as luzes, as cortinas se abrem mostrando a já decadente dupla, porém as lembranças afloram e permitem que o público vislumbre os por menores da história em seus primórdios. A projeção é muito bem feita, as inserções visuais são bem utilizadas e se adaptam muito bem as cenas.

Elenco em cena
(Divulgação)
Esta primeira parte nos mostra o dia a dia da família, exatamente quando Edth-filha está prestes a se casar com um integrante da família Kennedy. No cenário, a escadaria denota a grandiosidade do nome Bouvier. Num canto, um piano, sofás, espelhos, cortinas e, claro, o mordomo. Nesse cenário, aparecem os conflitos e suas causas. A coreografia se faz mais presente nesse primeiro momento, unindo voz e corpo num ato onde a dramaticidade é marcante. A iluminação é perfeita. Nesse ato, podemos perceber que Pierre Baitelli tenta uma conexão com seu par, Carol Puntel, mas não consegue. Carol é promessa mas Pierre não se achou no texto...

Na segunda parte – passados 30 anos – a família muda drasticamente e na mansão apenas estão mãe e filha, em completa empobrecimento e sobrevivendo no meio de gatos, guaxinins e dentro de uma mansão em ruínas. O cenário é fantástico, onde entram entulhos que parecem ter saídos do último trabalho do artista plástico Vik Muniz. Exatamente neste momento, no meio de restos, emaranhados de móveis velhos, roupas, e projeções da mansão em declínio é que vivenciamos o show de Suely Franco e nos embasbacamos com o vigor em que ela nos presenteia a personagem.

A partir do ódio, ira, inveja, ressentimento, amor, dependência, desespero, loucura, idas e vindas, elas permanecem unidas e inseparáveis. Verborragicamente travam a luta dos desesperados por liberdade, dos perdidos, dos decadentes, mas no fundo a dependência uma da outra sobrevive.

Elenco em cena
(Divulgação)
Não há mais a falar. E sim, para quem não teve o prazer de assistir, correr para testemunhar a montagem que encerrou sua temporada em 05/05/13. E, claro, preparando-se para aplaudir de pé e com direitos a assobios. E se surpreender com o vozeirão de Jorge Maya, bem no finalzinho.

No elenco, Soraya Ravenle divide o palco, na maior parte do tempo, com Suely Franco, que é o diferencial da peça - com interpretações e vozes fora do arquétipo de operetas brasileiras. Elas fazem a montagem do musical dirigido por Wolf Maya brilhar. Somando a dupla dinâmica estão Guilherme Terra, que vive o pianista e compositor, Carol Puntel, Jorge Maya, Pierre Baitelli, Sandro Christofher e Danilo Timm. Também somos presenteados com uma duplinha de pré-adolescentes, as meninas Raquel Bonfante (que vive a prima Jacqueline Bouvier) e Sofia Viamonte (Lee Bouvier), a primeira brilha e se mostra uma forte promessa de talento.

Tive o privilégio de presenciar Suely Franco mas agora ela foi substituída por Mirna Rubem pois reestreiou a peça “Seis Aulas de Dança em Seis Semanas”, com o ator Tuca Andrada. Bem, uma pena para quem perdeu sua divina atuação em Grey Gardens...

(Eleni Rosa)
Trecho do espetáculo

0 comentários :

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...