[CINEBOOK] "A Caça", de Thomas Vinterberg

Cartaz nacional
(California Filmes)
Sinopse: Lucas (Mads Mikkelsen) trabalha em uma creche. Boa praça e amigo de todos, ele tenta reconstruir a vida após um divórcio complicado, no qual perdeu a guarda do filho. Tudo corre bem até que, um dia, a pequena Klara (Annika Wedderkopp), de apenas cinco anos, diz à diretora da creche que Lucas lhe mostrou suas partes íntimas. Klara na verdade não tem noção do que está dizendo, apenas quer se vingar por se sentir rejeitada em uma paixão infantil que nutre por Lucas. A acusação logo faz com que ele seja afastado do trabalho e, mesmo sem que haja algum tipo de comprovação, seja perseguido pelos habitantes da cidade em que vive.
Trecho: As crianças contam que tudo aconteceu em seu porão





Resenha:
Ultimamente não ando com muita sorte nas escolhas dos filmes: ‘Uma História de Amor e Fúria’ (animação brasileira), ‘Invasão à Casa Branca’ (com Gerard Butler, ator de ‘300’) e ‘Oblivion’ (ficção científica à la Tom Cruise).

Mas os deuses resolveram presentear-me com uma redenção da sétima arte: ‘A Caça’, do dinamarquês Thomas Vinterberg, uma direção surpreendente que evita clichês e uma fotografia muito boa, nas mãos de Charlotte Bruus Cristensen.

Culpado ou inocente? Verdade ou mentira? E quando o tema é pedofilia, as discussões são sempre dogmáticas. O cinema sempre surpreende ao buscar ambientes que colocam a prova questões sociais, elementos sugestivos para narrar histórias de angústia expostas em dias tão conturbados. Uma crítica social inteligente – pura arte.
A pequena Klara
(Annika Wedderkopp)
O filme nos faz entrar na vida de um simples professor de jardim de infância, Lucas, vivido por Mads Mikkelsen (de O Amante da Rainha) - não à toa levou o prêmio de melhor ator em Cannes. Ele é separado, vive sozinho, reservado e tem um filho que vive com a mãe. Mas esse homem simples tem um diferencial: as crianças da escola onde trabalha o idolatram.

A vida de Lucas começa a virar pelo avesso em novembro – assim data a legenda - quando a filha de seu melhor amigo, uma meninha linda de cinco anos, começa a nutrir um sentimento diferenciado pelo professor. Após uma brincadeira, a pequena Klara (Annika Wedderkopp) beija Lucas na boca e ele lhe explica que essa atitude deve ser realizada apenas com seus pais. Mas Klara não entende e, confusa, a menina, que é exposta a figuras pornográficas pelo irmão mais velho e frases não muito santas, resolve contar uma ‘estória’ à diretora. Não é algo qualquer mas um abuso – interpretado imediatamente pela diretora como um caso de pedofilia.
Klara resolve contar
uma ‘
estória’ à diretora
Após a notícia ter passado pelo crivo da diretora, Lucas é suspeito de uma coisa que ele simplesmente desconhece, assim é suspenso do colégio e de sua vida. Seguindo orientações, como de praxe, a diretora reuniu os pais, contou o caso aleatoriamente e solicitou que observassem suas crianças para verificar se havia comportamentos diferentes. Ser acusado por abusar de uma criança injustamente é difícil. Então, como suportar se o abuso extrapolou a barreira de um dígito pois, claro, muitas crianças apresentaram comportamentos estranhos somados a ‘estórias’ mais mirabolantes ainda...

A comunidade toda ficou sabendo do fato e Lucas começou a ser perseguido e discriminado. Sua casa é apedrejada, seu cão é morto, ele é proibido de frequentar as lojas da localidade. E exatamente no olho do furacão, seu filho resolveu morar com o pai. No meio da confusão, ele passa a receber as reações sociais negativas relacionadas ao seu pai.

O protagonista dá o tom à fita, com uma interpretação fantástica, preenchendo a tela com uma presença intensa, irradiando decência, ética, indignação e, mesmo com tudo isso, buscando a autoestima dos inocentes, daqueles que não devem nada a ninguém e tentam andar de cabeça erguida mesmo quando o chão some sob seus pés.

É focada a reação de todos os amigos do professor, os olhares, as suspeitas, os gestos, a rejeição. Uma cidade contra Lucas. Sem comprovação, apenas suspeição. Enquanto corre o processo, algo é levantado por seu melhor amigo: ‘As crianças contam que tudo aconteceu em seu porão’. Pois é. Mas na casa de Lucas não há porão...
A vida de Lucas torna-se um inferno...
O filme coloca em xeque a inocência da infância, caso comprovado por um conhecido: “Sigmund Freud, criador da psicanálise, que chocou a sociedade ao falar da sexualidade infantil - rompendo com a imagem da criança inocente, assexuada”. Mais um caso a se pensar. Até que ponto vai à inocência de uma criança? E até que ponto há tolerância e perdão de um adulto?

O final é surpreendente, quando tudo parece ter sido bem resolvido e a vida da comunidade volta a sua normalidade. Claro que eu não poderia deixar de lembrar do filme ‘Dúvida’ (2009), que levou a indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante a Philip Seymour Hoffman, que viveu um padre acusado injustamente de pedofilia. Com certeza, Mads Mikkelsen mereceria subir as escadarias da academia e levantar a sua estatueta pois sua atuação é brilhante...

(Eleni Rosa)

Trailer oficial

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