[RESENHA] "O Inferno de Gabriel", de Sylvain Reynard

Sinopse: O professor Gabriel Emerson, especialista em Dante Alighieri, é um homem que vive em seu inferno pessoal. Até o momento em que se vê atraído por Julianne Mitchell, uma de suas alunas...
Ficha Técnica 

Título: O Inferno de Gabriel
Autor: Sylvain Reynard
Ed. Arqueiro | 2013 | Brochura |  512 páginas

Resenha: Antes de começar a resenhar, quero dizer quais foram as minhas impressões e expectativas ao ler a sinopse. 

A capa diz que “um professor atormentado por seus pecados se vê tentado por uma aluna angelical” e no verso fala que Gabriel é um professor misterioso e enigmático durante o dia mas que "à noite se entrega a uma desinibida vida de prazeres sem limites". Logo formei uma imagem mental de Gabriel: um homem bonito, entre os 30 e 40 anos, cabelos pretos, olhos azuis escondidos por um par de óculos e, claro, um corpo perfeito. Imaginei que fosse me deparar com um professor de olhar intenso, um ótimo profissional, é claro, alguém que sabe o que está falando. Sobre o mistério, imaginei que ele desse respostas evasivas a qualquer indício de pergunta pessoal ou um meio sorriso, talvez. Sobre a parte dos prazeres dsem limites, achei que frequentasse à noite um grupo do tipo mostrado no filme "De Olhos Bem Fechados", onde ricos faziam verdadeiras orgias regadas a álcool e drogas. Imaginei que ele fosse olhar para a tal aluna angelical e se sentir mais ou menos como Grey ao perceber que Anastasia não era para ele e que se punia com essa vida por algum segredo obscuro do passado, achando, claro, que não merecia Julia.

Então, abri o livro e... 

- Homem bonito: check!
- Entre 30 e 40 anos: check!
- Cabelos pretos: check!
- Olhos azuis: check!
- Óculos: check!
- Corpo perfeito: check!
- Olhar intenso: check! Quero dizer, ele é descrito como tal, daí a dizer que realmente passa a impressão de serem intensos...
- Ótimo profissional: check! (O melhor da área, claro!)
- Misterioso: Bem, falaremos sobre isso.
- Festas do tipo “De Olhos Bem Bechados”: Quê?
- “Não sou bom para você, Julia”: Check!
- Punição devido a segredos do passado: Check!

Coincidência ou previsibilidade? Façam suas apostas. Mas o fato é que eu acertei 80% do livro só nas minhas expectativas iniciais. Assim, não sei se preciso dizer mais alguma coisa a fim de convencê-los a lerem ou não, mas só pelo que viram até aqui já dá para saberem se o livro vai lhes chamar a atenção. Mas como eu não consigo manter a língua dentro da boca – ou o dedo fora do teclado –, vou falar assim mesmo...
“- Por que você bebeu tanto?
- Para esquecer”


Talvez este seja o único momento do livro inteiro em que podemos achar Gabriel um homem misterioso. Uma resposta não tão vaga assim, mas que pode nos dar trocentas coisas para pensar. Não, Gabriel não é um homem misterioso. Ele é apenas um homem solteiro, que não tem satisfações para dar a ninguém e que não abre sua vida pessoal aos seus alunos. É fato que tem um segredo em seu passado, algo com o qual ele tenta lidar, mas não encontrei um só indício de mistério nele.
Aliás, até aproximadamente a metade do livro, eu detestei Gabriel. Tudo porque achei que o autor – ou autora, também falarei melhor sobre isso – quis mostrar um homem num inferno pessoal e acabou por perder um pouco do tom. Logo no primeiro capítulo, Paul, um dos alunos de Gabriel, escreve um bilhete para Julia afirmando que o professor é um babaca. E ele age assim mesmo. Mas não é como Christian Grey - meu amado arrogante e maníaco por controle - ou Gideon Cross - meu querido direto e até mesmo grosseiro. Gabriel Emerson é um babaca em TODOS os sentidos da palavra! Mas aí as defensoras do professor me dirão que ele perdeu uma pessoa querida e está sofrendo o luto ainda nas primeiras páginas. E também me falarão sobre o inferno pessoal que ele está vivendo. Mas eu ainda acho um exagero mostrá-lo como um homem mal-humorado e mal-educado até a metade do livro, quando há uma reviravolta em sua vida.
Julia resolve contar para ele que os dois já haviam se encontrado anteriormente. E isso faz com que ele mude da água para o vinho! O Professor Emerson - que até então vinha sendo um Babaca com “b” maiúsculo - se transforma no verdadeiro “Cara”, deixando Théo, Raj, ou seja lá quem for o mocinho da vez, morrendo de inveja. Aí vem as defensoras dizendo o que Julia significava para o tal professor e justificando sua mudança de comportamento. E eu digo que o homem não mudou de comportamento, ele simplesmente virou um personagem totalmente diferente. Sylvain Reynard escreveu duas personagens: Gabriel Antes de Saber e Gabriel Depois de Saber. Fato!

Agora vamos falar sobre Julianne Mitchell.
“- Rachel disse que você está na lista VIP do Lobby. - Julia mudou de assunto rapidamente de novo, ainda sem considerar as suas palavras.
- Isso é verdade.
- Ela fez um mistério sobre isto. Por quê?
Gabriel fez uma careta.
- Por que você acha?
- Eu não sei. É por isso que eu perguntei.
Ele fixou-a com seu olhar e baixou a voz.
- Eu vou lá regularmente, por isso o status VIP. (...).
- Por que você vai lá? Você não gosta de dançar. É só para beber? (...).
- Não, Srta. Mitchell, em geral, eu não vou para o Lobby para beber.
- Então por que você vai?
- Não é óbvio? - Ele franziu a testa. Então, ele balançou a cabeça - Talvez não para alguém como você.
- O que é que isso quer dizer?Alguém como eu?
- Isso significa que você não sabe o que você está me perguntando. - Ele cuspiu, olhando para ela com raiva. - Caso contrário, você não me faria dizer isso! Você quer saber por que eu vou lá? Eu vou te dizer por que eu vou lá. Eu vou lá para encontrar mulheres para foder, Srta. Mitchell. - Ele estava chateado agora e olhando fixamente para ela. - Feliz agora? - Ele rosnou.
Julia respirou fundo e segurou a respiração. Quando ela não pode mais prendê-la, balançou a cabeça e exalou.
- Não. - Ela disse baixinho, olhando para suas mãos. - Por que isso me faria feliz? Isso faz mal ao meu estômago, na verdade. Realmente me deixa doente. Você não tem ideia”
Este é um diálogo que dá para ter mais ou menos uma imagem de Julia.
Ela é totalmente sem sal, do mesmo jeito que Bella Swan. Anastasia Steele também foi escrita para ser meio sem sal mas ao menos tem um humor interessante. Julia nem isso. A personagem é uma mulher de 23 anos, virgem, com uma história triste de vida e um “grande” trauma do passado. Bem, não vou aqui dizer que o que aconteceu com ela seja uma coisa fácil de superar, mas Julia coloca as coisas como se nunca mais fosse conseguir acreditar na humanidade novamente. Ela treme todas as vezes em que alguém toca no assunto "aniversário" para ela!

[Revolta mode on]
Aliás, falando em aniversário, quero aqui fazer uma pausa para uma reclamação: Por que todas as mocinhas desses romances, aquelas que são mais ingênuas ou sem sal, são virginianas? Bella Swan (13/09), Anastasia Steele (10/09), Julia Mitchell (01/09)... Todas nascidas sob o signo de Virgem! E como virginiana verdadeira (30/08), posso dizer uma coisa: ser virginiana não é sinônimo de ingenuidade ou qualquer coisa do tipo. Na verdade, somos bastante desconfiadas, racionais e analistas.
Ok, [revolta mode off]

Eu passei o livro todo sem gostar de Julia. Ela é insegura, algo que a história de vida dela fez com ela. Sua autoestima é devastada por um ex-namorado. Até aí tudo bem. Mas a ingenuidade e bondade dela, chegam a ser burrice, algo que dá para perceber no diálogo que transcrevi. Aliás, ainda tenho minhas dúvidas se uma garota que passou por tudo o que ela passou seria inocente como Julia é. Ou melhor, como deveria ser. Para mim, ela é simplesmente estúpida. E fraca! Sinceramente, uma pessoa para ser boa não precisa ser idiota e pisoteada da forma como ela é.
Sobre os demais personagens, também posso dizer que me desapontei com eles. São todos muito caricatos: personagens que devemos gostar são virtuosos, aqueles que devemos odiar são capazes de todas as coisas odiosas da face da Terra. Uma aluna que quer seduzir Gabriel é uma verdadeira líder de torcida dos filmes adolescentes: sexy, infantil, com ego que se satisfaz rebaixando os outros e capaz de passar por tudo e por todos para conseguir o que quer. Ela age mesmo como uma garota de 15 anos e Gabriel não tem o menor tato para lidar com ela, o que eu acho muito estranho, já que ele é colocado como um professor muito exigente mas aceita ser orientador dela. Outra personagem é uma predadora sexual, adepta ao sadomasoquismo, colocado como algo repugnante e imperdoável, deixando Gabriel cheio de vergonha e culpa por ter experimentado a prática e com medo de que uma escandalizada Julia jamais possa perdoá-lo.
Mas, tirando minha insatisfação com a construção dos personagens, o livro não é de todo ruim.
Um ponto positivo em relação aos últimos romances que li ultimamente é que “O Inferno de Gabriel” não é narrado em primeira pessoa mas por um narrador onisciente que nos conta não apenas o que se passa dentro de Gabriel e Julia mas de personagens de segundo plano como Rachel, Paul e Christa. Muito embora eu seja apaixonada por narradores personagens, achei bastante interessante um romance com esse tipo de recurso narrativo. 
Ainda sobre a narração, posso dizer que ela é bem leve. Comparado com as trilogias “Cinquenta Tons” e “Crossfire”, as palavras são até mesmo doces. Há poucos palavrões ou palavras tidas como “excitantes”. Aliás, é bom dizer que, se você quer ler cenas quentes, o livro praticamente não as tem. Gabriel é sexy e dá uns amassos em Julia mas é tudo sempre muito delicado e não tão detalhado quanto as trilogias eróticas que falei acima. A virginidade de Julia é tratada como uma coisa tão sagrada que parece surreal. E o livro também é muito romântico, sobretudo quando aparece o Gabriel Depois de Saber.
 Também achei bastante interessantes todas as conexões com “A Divina Comédia”, de Dante Alleghieri. Neste primeiro livro, tem muitas referências ao “Inferno”, a primeira parte do poema. Achei muito bacana porque Gabriel parece ser o próprio Dante, enfrentando todo o seu inferno pessoal. Embora eu esperasse muito mais sobre esse tal “inferno pessoal”. Achei bastante artificial, tanto os motivos dele quanto às descrições do sofrimento.  
Mas, para terminar, eu quero falar sobre Sylvain Reynard.
Não se sabe quase nada sobre a verdadeira identidade de Sylvain Reynard. Sabemos que é canadense, que tem muito interesse em arte e cultura renascentista. Aparentemente, este é o nome de um homem e as orelhas do livro se referem a Reynard no gênero masculino, mas ninguém sabe ao certo. 
E eu dou minha cara a tapa como essa pessoa é uma mulher! Hahaha...! Um trecho do livro poderá explicar melhor do que eu:
“- O que está acontecendo com o casamento? Rachel disse que você escolheu uma data, mas quando lhe perguntei sobre isso esta noite ela ficou calada.
Ele balançou a cabeça.
- Não diga nada a ninguém, mas nós estávamos planejando nos casarmos em julho. Isto é, até que Rachel viu o pai dela desabar durante as graças. Ela me puxou de lado depois do jantar e disse que não havia nenhuma maneira de que ela pudesse trazer o tópico de um casamento agora. Então voltamos para onde estávamos antes: noivos com nenhuma data fixa para o casamento - Aaron abaixou a cabeça um pouco e enxugou os olhos com as costas de uma de suas mãos.
Julia sentiu pena dele.
- Ela ama você. Ela vai se casar com você. Ela só quer uma família feliz e um casamento grande e feliz. Você vai chegar lá.
- (...) Mas eu a amo. Eu a amava há anos. Eu nunca quis viver juntos: eu queria casar com ela assim que se formou no colegial. Mas ela sempre quis esperar. A espera está me matando, Jules. (...) Eu quero ficar de pé na frente dela, de Deus e de todos os nossos amigos e fazer promessas para ela. Eu quero que ela seja minha. Não como minha namorada, mas como minha esposa. Eu quero o que Richard e Grace tinham, mas há alguns dias eu me pergunto se isso nunca vai acontecer”.
Bom, ok, um cara estar chateado porque a noiva vive adiando o casamento, mas daí a CHORAR na cozinha com a melhor amiga DELA porque adiou o casamento de novo? E fazer um DISCURSO desses?
Só uma mulher pensa nisso...

É isso. O próximo livro da série, “O Julgamento de Gabriel” sairá nas livrarias em Julho / 2013. Eu estou ansiosa para ler... Sério! Sei que não vou amar ou me apaixonar, mas quero saber a continuação da história, mesmo sendo o livro mais SABRINA que todas as SABRINAS que já li.
(Stéf Rhoden)

Closer”(Nine Inch Nails) - que deixa Julia altamente perturbada...

5 comentários :

  1. Mais um carrossel na onda de cinquenta tons de cinza... Clichês aos montes...

    Eugênio

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  2. Sim, Eugênio...

    Mas eu vi uma frase uma vez que achei bem interessante: "Os clichês existem por um motivo: eles funcionam!"

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  3. Vou repetir aqui o que disse no FB: a capa do livro me lembra a abertura de uma novela mexicana... Não sei se isso é bom ou ruim mas tá vendendo pra caramba... (KJM)

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  4. Também achei o livro tranquilinho demais e o Gabriel depois de saber que Julia era a sua Beatriz é bacana e tudo, mas se um pouco da irritabilidade ou grosseria dele permanecesse ainda que de leve, só pra apimentar um pouco mais o romance teria deixado-o mais interessante. Quanto ao respeito pela virgindade dela achei... LINDO! E o gostinho de quero mais não permanece quando terminamos a leitura só lerei s próximos porque sou curiosa, mas O inferno de Gabriel parece ter um fim em si mesmo. Ah! e também acho que é uma autora!

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  5. Concordamos em praticamente tudo, Domy...

    Beijocas!

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