[RESENHA] "Corte Seco" de Christiane Jathahy




Despretensiosamente sento-me, olho ao redor e concluo que o Ginástico ficou muito melhor depois da reforma e da administração do SESC. A poltrona é de um conforto razoável, o ambiente é amplo possui dois andares. Encontro-me no balcão, dele vejo as luzes acesas e um palco todo iluminado, porém estranho algumas cadeiras amontoadas de um lado, um vazio em cena com ar de que está faltando acabar algo. Avisto monitores de LCD, três no total. Há uma mesa grande do lado direito do palco composta por três pessoas (direção, luz e som, penso) que deixa qualquer um intrigado. Isso mesmo... não existe divisórias?  Afinal, estou no lugar certo? Sim, o lugar é este e a peça é Corte Seco.


De modo repentino, uma mulher, supostamente a diretora avisa: ‘...ao contar... no número 5 a peça vai começar, 1, 2, 3, ...’ e de repente vários atores entram em cena, começam a arrastar cadeiras, sentam-se e as costas das cadeiras exibem faixas com as inscrições: DIALOGAR, CARACTERIZAR, INTERIORIZAR, NARRAR e DESCREVER.

Uma historieta se inicia, sentada na cadeira escrito NARRAR alguém começa uma história de uma menina, não, minto, de uma família. Não demora muito e alguém senta-se na cadeira CARACTERIZAR, um ambiente é descrito, pessoas são descritas – ‘Tudo começa no Carnaval em Arraial do Cabo, repentinamente uma discussão, um acidente e a morte’. A diretora interrompe ao pronunciar um número. A Narrativa para. Atores saem de cena. Um casal permanece e sua história começa a ser dissecada – cadeiras são retidas e de repente a personagem é proibida de pronunciar qualquer palavra, pois não possui cadeiras. Em meio a gritos e palavrões, eles tentam NARRAR à cena, se atropelam e nos confundem ao pronunciar seus nomes verdadeiros, com lágrimas tentam DIALOGAR e finalmente INTERIORIZAR a separação.



O anseio de quem está assistindo ávido por inovação deixa os olhos abertos e os ouvidos mais apurados ainda. É saboroso assistir uma peça se explicando dramaticamente, quase didaticamente.



As cadeiras impõem desempenhos a quem as ocupa, sofremos com a dificuldade de identificar personagens que se confundem com o artista. Os monitores que estão no palco não são objetos simples do cenário, não estão expostos aleatoriamente, pois são elementos que  interagem  com a cena mostrando seus personagens no interior ou exterior do teatro, tudo em tempo real.

Em outro momento atores fazem um emaranhado de linhas no chão com fita crepe e nos remete a um cenário confuso, fazendo-nos lembrar de um ringue. Para cada caso há um corte súbito conduzido ao vivo pela diretora, apenas ao balbuciar um número. O que nos leva a crer que várias cenas ensaiadas ganharam uma numeração e para utiliza-las e mudar o rumo da história basta dar vida aos números. Assim observamos atentos todas às narrativas que elucubram a realidade de nosso tempo.

Após as cenas do acidente e da separação somos absorvidos em narrativas de abusos sexuais, atropelamentos, relações mal resolvidas entre pai e filho, mãe e filha, homem e mulher além, claro, de notícias recentes que estamparam os noticiários dos jornais como o caso da expulsão dos índios do casarão ao lado do Estádio do Maracanã.

Corte Seco traz na direção Christiane Jathahy e a Cia. Vértice de Teatro. Presenteia-nos com a interpretação de Thereza Piffer, Felipe Abib, Stella Rabello e o global Eduardo Moscovis, entre outros. A peça tem inspiração nas experiências do dramaturgo espanhol José Sanchis Sinisterra, partindo da dramaturgia autoral - entende-se por ‘fusão de parâmetros dramáticos previamente traçados com pulsões subjetivas que os atores possam oferecer no calor da hora’. Estreou em 2009, no Rio de Janeiro, com grande sucesso de crítica e público. Participou de festivais, recebeu indicação de Melhor Texto pelo Prêmio APTR dos críticos cariocas e de Melhor Direção pelo Prêmio Shell 2010. 


Por que Corte Seco? Por tudo que está escrito acima é possível imaginar a resposta, porém há uma explicação técnica: ‘Corte Seco’ é uma expressão utilizada nas edições de vídeo para se referir a mudanças de quadro sem nenhum disfarce.

Observação:

Não é improviso, é um jogo e... aberto, mas com certeza é uma linguagem deliciosa. Mais uma peça que usa a metalinguagem...ou meta-teatro, o teatro falando dele... Em um formato meio McLuhan (teórico que afirmou que o meio é a mensagem) e ‘Corte Seco’ é um bom exemplo desse estudo. 
Pasmem, infelizmente, Corte Seco não está em cartaz no Rio de Janeiro neste início de 2013. Fui privilegiada ao usufruir uma apresentação única na Mostra de Teatro – Panorama Petrobras Distribuidora de Cultura, no Teatro Ginástico, no dia 27 do mês de março. Mas não desanimem, ‘de repente, não mais que de repente’ ela pode retornar à cena carioca. Torcemos, oremos, façamos promessas e mandingas, pois a peça é um primor contemporâneo, vale cada minuto durante e... depois.

Por Eleni Rosa
  
   

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