[CINEBOOK] "Uma História de Amor e Fúria", de Luiz Bolognesi

Sinopse: Destinado ao público jovem e adulto, com traço e linguagem de HQ, a animação nacional “Uma História de Amor e Fúria”, escrita e dirigida pelo premiado cineasta e roteirista Luiz Bolognesi ( de “Bicho de Sete Cabeças”, dentre outros), narra o amor entre Janaína e um guerreiro indígena que, ao morrer, assume a forma de um pássaro. Durante seis séculos, a história do casal sobrevive, atravessando quatro fases da história do Brasil: a colonização, a escravidão, o regime militar e o futuro, em 2096, quando haverá uma guerra pela água. Em todos estes períodos, os dois lutam contra a opressão. O filme, produção da Buriti Filmes e Gullane, conta com distribuição da Europa Filmes e traz Selton Mello, Camila Pitanga e Rodrigo Santoro interpretando os personagens principais. Realizado durante os últimos seis anos, o longa é fruto de uma extensa pesquisa com profissionais das áreas de história e antropologia, a partir da qual o diretor e roteirista decidiu quais os pontos da história do país seriam abordados.
Trecho:
"Meus heróis não viraram estátua. Foram mortos por aqueles que viraram...".

Resenha: É uma dura tarefa escrever resenha crítica sobre um filme brasileiro de animação. Se falarmos muito bem, sempre terá quem diga que quem escreveu tem receio de que a distribuidora não o chame novamente para outras cabines de imprensa. Se fizermos uma crítica mais dura, haverá a turma do deixa-disso dizendo que deveríamos, pelo menos, apontar as qualidades do filme para "darmos uma força".
Brasil de 2096 a la Blade Runner
e Minority Report
Mas pessoas que tem esses dois polos de opinião podem se esquecer que um filme de animação é, acima de tudo, um produto de entretenimento. E como tal, tem obrigação de cumprir bem seu papel. Afinal, como consumidores, temos o direito de exigir isso...
Janaína na Guerra da Balaiada

E foi com muita estranheza que assisti a esse longa animado completamente nacional chamado "Uma História de Amor e Fúria". Estranheza porque eu não estava na lista de e-mails da distribuidora Europa Filmes. Meu contato deu-se pois queríamos marcar uma entrevista com o diretor estreante (e também roteirista) Luiz Bolognesi. A resposta foi com o convite para assistir ao filme antes da estreia. E como coisas boas não costumam acontecer comigo...

Apesar de já ter tomado conhecimento da sinopse, fui totalmente alheio a quaisquer informações justamente para ser levado pelas surpresas que poderiam ocorrer. E, infelizmente, não foram boas surpresas. O filme começa no futuro, com uma cena lindamente ilustrada e cheia de ação. Em determinado momento, o personagem de Selton Mello narra: "Tem momentos na vida em que nos perguntamos porque tudo está acontecendo. No meu caso, eu sei que foi tudo por causa de Janaína...". Daí, voltamos à época do Descobrimento do Brasil, onde o personagem era um índio. E assim começamos a conhecer a saga deste guerreiro que morre e renasce como um pássaro para reencontrar a amada, sempre numa época diferente e sempre tendo de lutar contra as injustiças...
O casal quando ainda eram índios...
Quando li a sinopse e vi os trailers, a primeira lembrança que me veio à cabeça não foi o filme "A Viagem" (Cloud Atlas, dos irmãos Wachowski) mas sim a novela "Amazônia", escrita por Benedito Ruy Barbosa e exibida na extinta TV Manchete. E também o clássico da literatura "Fernão Capelo Gaivota". Nem acho ruim esse tipo de mistura. O problema é a apresentação e o tipo de abordagem a ser feito neste produto.

Os dois primeiros terços do filme tem problemas seríssimos de animação, feita à moda tradicional e com visíveis dificuldades de acabamento, onde até mesmo "bitmaps brancos" são vistos na telona. Os personagens parecem inexpressivos em relação ao que os atores estão dizendo em muitos momentos. E isso incomoda. Muito. E sabem por que? Pelo simples motivo de que dá a impressão de que o Brasil não pode criar um filme animado de aventura por causa de patrocinadores metendo o bedelho o tempo todo, dizendo como se deve fazer o trabalho...
Violência formou o Exército Brasileiro?

E também incomoda quando vemos que um dos objetivos do filme é contar a História do Brasil. Não, nada de errado nisso também. Mas ao visar o público jovem e adulto, fica difícil saber se atualmente haverá paciência para assistir a uma verdadeira aula de História sobre nosso país na sala do cinema. Principalmente por conta do roteiro extremamente didático nesse sentido pois houve acompanhamento de antropólogos no tratamento da história em si, mostrando alguns fatos que não são evidenciados em muitos livros do Ensino Fundamental e Médio.

Isso não foi por acaso pois está sendo lançado um livro que tem amparo pedagógico e tudo o mais...

Livro e DVD sobre os períodos
históricos abordados no filme
Quando finalmente passamos por um dos períodos mais turbulentos de nossa História recente - a Guerrilha de 1964 -, o roteiro começa a parecer uma produção digna de nossa apreciação, com diálogos melhores trabalhados e ambientação adequada. E daí pro final mantém-se a qualidade.

A impressão que temos ao assistir é que participaram do processo diversos estúdios de animação para realizar o filme. Pois o traço dos personagens evoluem visivelmente. No início, temos índios lembrando cópias malfeitas de personagens saídos de "Pocahontas" (Disney) e "O Príncipe do Egito" (Dreamworks), com traços angulosos e econômicos. Os cenários, lindamente ilustrados na tela, sobressaem-se em decorrência de um desenho visualmente pobre e sem atrativos. Até mesmo a animação, truncada e com problemas de ritmo, faz-se notar por conta disso. Infelizmente, devo ressaltar...

Da metade pro final, mesmo com todos os problemas do roteiro, a animação já torna-se fluída e "casa" com os belos cenários.
Belos cenários

Para quem não sabe, a ideia do filme foi criada há 11 anos. Mas somente há seis que o projeto começou a ter andamento. E ainda não temos uma indústria de animação no Brasil. Temos ótimos animadores trabalhando dentro e fora do país em desenhos animados e filmes diversos mas nada de porte feito exclusivamente pro mercado de cinema e home video nacional.

A dublagem - ou melhor, a atuação pois foi feita antes do filme estar pronto - não incomoda mas também não tem nada de muito brilhante, uma vez que o trio principal já tinha experiência no assunto.
Rodrigo Santoro (esq.), Camila Pitanga (centro) e
Selton Mello (dir.)
(Selton Mello já foi dublador do personagem Charlie Brown em "Snoopy" - dentre outros -, Camila Pitanga fez a protagonista de "Atlantis" e Rodrigo Santoro fez "O Pequeno Stuart Little" e, mais recentemente, um personagem coadjuvante na animação "Rio")

Quando começaram a serem exibidos os créditos finais, rolando uma música ótima da Nação Zumbi e exibindo ilustrações FANTÁSTICAS que misturavam estilos artísticos mostrando períodos da História do Brasil, fiquei pensando se tudo não poderia ser diferente e ousado. E digo mais: talvez a adaptação para animação tenha sido uma escolha equivocada pois se fosse lançada em formato de minissérie para histórias em quadrinhos, daria para desenvolver melhor os personagens e, quem sabe, passar pelo ProAc e parar numa biblioteca pública...

"Mas, tio Kal... O filme entretém ou não???", pergunta o incauto #impressionauta. Depende. Se houver paciência por parte da plateia, sim. O filme recebeu censura 14 anos por conta de cenas de nudez e violência, portanto não é feito para crianças. E isso é um detalhe que pode comprometer na arrecadação...

Resumindo: é uma história de amor, passando por diversos momentos da História de nosso país, chegando a um possível futuro. O final é um recomeço e já existe a possibilidade de um segundo filme a caminho, possivelmente feito em CG 3D. E a esperança que tenhamos mais produtos de animação bem formatados à nossa realidade, sem problemas de concepção e com a preocupação em contar uma boa história. Mas assista. Nem que seja para "dar uma força"...

Kal J. Moon não gostaria de ser personagem desse filme. Essa Janaína dá o maior azar!

Trailer Oficial

3 comentários :

  1. Concordo em gênero, número e grau.
    Kal J. Moon, meu comentário foge aos padrões...é enoooorme, poderia ser um bate papo. Bem, não sei o motivo, mas não estava propensa a assistir esta animação - de repente estava adivinhando o que me aguardava. Uma sensação distinta a que tive no lançamento do filme ‘Rio’ (não que tenha sido ótimo). Após os primeiros 35 min. já consultava o relógio. Outro incômodo foi o discurso do oprimido, do desfavorecido - apresentado de uma forma tão simplista, não sei se você observou a mesma coisa.
    No início também estranhei os traços dos desenhos e pensei “coisa de artista...”, ‘design’ de HQs. Embora não tenha sentido capricho nas linhas. Depois percebi que era tedioso... chato mesmo. Ah! Também muito previsível!
    Sendo uma saga brasileira (iniciada em 1500), com as duas primeiras ações nada dignas de um repouso de 70 min no cinema, o que esperar? Mas concordo, somos surpreendidos na outra metade, o filme deslancha quando aborda a revolução de 64. Na animação, são registrados os movimentos contra a ditadura - a luta dos estudantes, as torturas e prisões.
    Ao chegar em 2096, também achei que os desenhos ficaram, verdadeiramente, melhores. Nessa hora começa o relato do cine catástrofe, o Brasil sofre com escassez de água (relembremos um filme de 1995, reprisado inúmeras vezes na sessão da tarde: ‘Waterworld, O Segredo das Águas’, com Kevin Costner). Na sequência entra a dose de atualidade, ‘milicianos’ fazem parte da cúpula do Estado (desta vez podemos lembrar os filmes ‘O Homem do Ano’, com Murilo Benício, de 2003 e o atual ‘Som ao Redor’). É incrível como a animação ganha mais agilidade, o visual é bem acabado e com muita criatividade.
    Kal, tive a mesma sensação quando subiram os créditos. Achei as ilustrações maravilhosas e pensei “Por que o filme não trabalhou as imagens nesse formato?”
    Um adendo, como você apontou muito bem, o didatismo faz pensar que é uma história muito boa para ser apresentada em sala de aula... Aula de reforço. Os professores vão adorar. Fica a dica... Porém, quanto ao entretenimento... deixa muito a desejar como filme de animação, o Sr. Kal J. Moon está coberto de razão.
    Fato interessante: é focalizada a troca de livros (Ex.: O Príncipe, de Maquiavel) dos presos políticos com os presos comuns. Está aí à história de ‘Escadinha’, que esteve no antigo presídio da Ilha Grande e conviveu com os guerrilheiros - um dos fundadores da Falange Vermelha que aterrorizou o Rio na década de 80 e, posteriormente, ficou conhecido quando trocou o nome para Comando Vermelho – CV e até hoje assombra os morros cariocas.
    Eleni Rosa

    ResponderExcluir
  2. Eu sabia (sobre Luiz Carlos Encina, o Escadinha) e prestei bastante atenção no subtexto, Eleni... O que me deixou perplexo mesmo foi ver que o roteirista era o mesmo de Bicho de Sete Cabeças, que é um senhor filme. E este é somente regular e didático... Vamos ver se na sequência - já em pré-produção - acerta... (KJM)

    ResponderExcluir
  3. aguardando ancioso pra baixar.
    valeu

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...