[RESENHA] "Um amor, um verão e o milagre da vida...", de Isa Colli

Capa (Ed. Baldon)
Sinopse: Maria Paula é uma jovem de família rica de São Paulo, que vai passar as férias de verão na casa do avô em Angra dos Reis. Lá, conhece João Carlos, JC, um surfista filho de pescadores e apaixonado pela natureza. Não demoram a descobrir o amor pela primeira vez. Mas, infelizmente, a vida prega peças e Maria Paula e JC precisam enfrentar o obstáculo mais difícil do ser humano: a luta pela vida.
“— Nem sei o que dizer diante tanta beleza! — reve­la, quando surpreendido pelo olhar envergonhado de Maria Paula. — Fico imaginando como seria beijá-la; como deve ser o gosto da sua boca!

Maria Paula perde o ar meio ingênuo que desenhava seu rosto e deixa despertar a mulher que estaria em breve por revelar. Com um olhar quase felino, ela se insinua:

— Por quê, imaginar? Beije-me, beije-me! — diz ela, quase que em ato de entrega”.
Resenha: Quando li a sinopse, achei interessante. Gosto de histórias de superação. Sobretudo, superação do câncer, que tem um significado todo particular para mim. Senti que gostaria do livro, principalmente porque a capa já deixa claro que foi baseado numa história real.

Então, logo comecei a leitura. O prefácio traz o depoimento da própria autora, um pouco de sua experiência. E é difícil não se emocionar.

Na página seguinte começa o enredo. Somos apresentados à tradicional família Mendonça: William, sua esposa Estela e sua filha Maria Paula. Também fala-se um pouco sobre os pais de William, Olímpio e Amália, que faleceu alguns anos antes de câncer. Por isso, William não consegue mais voltar a Angra dos Reis (RJ), onde sua mãe passou seus últimos momentos e o lugar em que seu pai se refugiou após a viuvez. A história começa com Estela convencendo William a passar as férias de verão em Angra e até mesmo Maria Paula parece entusiasmada.

Então, começa o foco em Maria Paula. Ela é uma adolescente de dezessete anos – o que só fica claro no decorrer do livro, uma vez que pensei que ela fosse uma criança, a princípio. É fútil, mimada e cheia de vontades; daquelas meninas que vão fazer compras no shopping para acabar com o estresse. Para que suas férias não sejam muito chatas em Angra, convence Bárbara, sua melhor amiga, a viajar com ela. Assim que elas desembarcam na ilha, passamos a conhecer, também, João Carlos, mais conhecido como JC.

JC é o oposto de Maria Paula. Seu pai é pescador, passa dias no mar trazendo o sustento da família, e sua mãe é costureira. JC gosta de surf, futevôlei, trilhas... Trabalha como guia turístico no verão e estuda para o vestibular. Pretende cursar Biologia para se refugiar na ilha e proteger seu bem mais precioso: a natureza. É um rapaz simples, adorado pelo irmão caçula e muito querido pelos avós, a irmã mais velha e os amigos.

E, então, vem minha primeira crítica ao livro: apesar do foco da história ser o romance dos meninos e as mudanças que acontecem nos dois, Maria Paula e JC só se conhecem na página 70. E só na página 80 as coisas começam a se desenrolar entre eles. Antes disso, a autora passa bastante tempo preocupada em descrever as famílias, os hábitos saudáveis de JC, a ilha e, claro, os primeiros sintomas da doença do rapaz. Mas assim que Maria Paula e JC se conhecem, a história ganha um novo ritmo e os acontecimentos parecem se desenrolar mais rápido. 
A autora Isa Colli

A narrativa é extremamente poética. Eu tinha a impressão de estar lendo um livro de poesias – e só depois, quando li a biografia da autora, vi que ela era poetisa.

(Grande conclusão, Stéfanie!)

A narração cheia de romantismo, de um vocabulário não tão usual, somada ao clima de felicidade que tem em todo o livro, me dava a impressão de assistir a uma novela de Manoel Carlos. E isso tem pontos altos e pontos baixos.

A narração romântica me fez querer fazer as malas e ir correndo conhecer Angra dos Reis. Isa Colli, a autora, me fez ficar sonhando acordada com as belezas da ilha, imaginar o paraíso que ela descrevia, cenário de tantos romances. Um lugar que parece ser mágico, pintado por Deus. Eu não parava de pensar: “Quero conhecer este lugar! Preciso conhecer! Urgente!”. Fora as descrições lindas das cenas românticas entre os dois adolescentes. Ficou tudo muito bonito e me fez soltar vários suspiros...

Porém, os pontos baixos ficam nas observações de que adolescentes não conversam com tanta poesia como Maria Paula e JC. E pessoas simples, como a autora insiste em demonstrar que são os familiares de JC, não falam daquela forma. Não usam habitualmente palavras como “amnésia” ou frases poéticas. Ao menos não as pessoas que já passaram pela minha vida como aquelas retratadas no livro... Além disso, a autora coloca algumas frases informais e gírias no meio da narração poética, tentando quebrar um pouco da formalidade e eu fiquei um pouco tonta. Particularmente, não sou muito fã da mistura mas também compreendo a intenção dela, que era quebrar um pouco do clima tenso que a história alcançaria.

“— João Carlos, há quanto tempo sente essas dores?
— Há uns quatro meses, mas tomava um antiácido e ficava bem.
— É o que quase todos fazem. Automedicam-se e não procuram médicos. Já temos o resultado de alguns exa­mes importantes.
— E o que eu tenho, doutor? — o rapaz estava afli­to. Imóvel na cadeira, mordia o lábio, observando o médico com os olhos vivos, bem atento. Aquele era o momento que Marisa tanto temia.
— Você é portador de um tumor no estômago — fala diretamente o médico, sem expressar emoção. Não po­dia fragilizar seu paciente”


As descrições da doença e do tratamento estão muito bem feitas, embora eu tenha a impressão de que só entendi tudo aquilo por ser formada na área da saúde. Talvez a autora pudesse ter trabalhado um pouco mais para colocar numa linguagem mais acessível tudo aquilo que os médicos diziam no livro. Mas é nítido o enorme trabalho de pesquisa feito por Isa Colli e o quanto teve ajuda dos médicos. As descrições estão muito bem feitas e embasadas.

Mas aqui também vai minha segunda crítica: acho que alguns trechos poderiam ter sido melhor explorados, como o romance, os “transes” de JC e o tempo em que ele ficou no hospital. Entendi toda a mensagem da autora e consegui perceber as nuances das transformações dos dois jovens mas acho que ela poderia ter explorado um pouco mais. E a revisão técnica do livro também pecou em alguns momentos. Vi alguns pequenos erros de português.

Ao final do livro, temos dois depoimentos emocionantes e pude perceber que o movimento “Por um sonho de verão” é real, o que me fez sentir falta de maiores informações sobre ele. Também há um pequeno currículo dos médicos retratados no livro, o que achei interessante e bastante útil.

Enfim, “Um amor, um verão e o milagre da vida” é uma história bonita contada por uma poetisa. Uma história de amor e superação que cumpre seu objetivo: levar a esperança àqueles que se deparam com o diagnóstico do câncer.

Ficha Técnica

Título: Um amor, um verão e o milagre da vida...
Autora: Isa Colli
Ed. Baldon | 2011 | 231 páginas
Trilha Sonora: "Fake Plastic Trees" (Radiohead)

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