[RESENHA] "Toda Sua", de Sylvia Day

Capa da edição brasileira
(Ed. Companhia das Letras)
Sinopse: Eva Tramell acaba de se mudar para New York com seu melhor amigo, Cary Taylor. Em uma cidade nova, com um apartamento novo e um emprego novo, tudo está a mil maravilhas para Eva. Até o momento em que ela conhece Gideon Cross, o bilionário lindo e solteiro dono do edifício Crossfire, onde Eva trabalha...

Resenha: Logo que começou a enxurrada de e-mails de livrarias anunciando “Cinquenta Tons de Cinza”, passei a ver também os anúncios para “Toda Sua”, de Sylvia Day.

E logo torci o nariz...

As pessoas adoram embarcar no sucesso umas das outras e isso me irrita. Claro que algumas editoras correriam atrás de outros romances eróticos para concorrer com a trilogia de E. L. James. Então, para não parecer uma adolescente "birrenta", resolvi analisar alguns pontos antes de decidi se leria ou não. Capa? Hum... Bonita, mas não me chamou atenção. Título? “Toda sua” é terrível! Vamos tentar o título em inglês? “Bared to you” – “Nua para você”, em tradução livre, igualmente péssimo. Sinopse? Impossível ser mais “Sabrina”... Decisão: não vou perder meu tempo!


Mas, aí, terminei a trilogia de E. L. James e vi algumas pessoas falando sobre este título, o primeiro da trilogia “Crossfire”. Segundo me disseram, era melhor escrito que “Cinquenta Tons” e as cenas eram mais... Quentes. Tamborilando os dedos e movida por uma curiosidade mórbida, me rendi.

Minha conclusão: não vou dizer que perdi tempo – e um final de semana – lendo a história. Mas, francamente... Que história ruim!

Primeiro capítulo, como de praxe, conhecemos a protagonista, que também é a narradora. Eva é uma mulher de 24 anos, cujo melhor amigo é um modelo bissexual e problemático – aliás, não tem gente feia neste livro pois são todos lindos e esculturais. Voltando à Eva, descobrimos de cara que ela também é enteada de um ricaço e que ela tem orgulho próprio: ao invés de usar os contatos do padrasto para entrar numa grande firma de publicidade, ela quer começar por baixo, com seus próprios méritos.

Bem, a mocinha tinha que ter caráter, não é? Nada de errado até aqui.

Então, ainda no primeiro capítulo, vestida com roupas de ginástica, Eva quer cronometrar o tempo que leva de seu novo apartamento até o edifício Crossfire, onde está localizada a agência de publicidade em que ela começará a trabalhar. E ali, após um incidente bobo, ela encara pela primeira vez o homem mais sexy e lindo que eu posso imaginar.

“Eu estava mais preocupada em olhar, hipnotizada por aquele homem na minha frente. Seus cabelos de um preto bem vivo emolduravam um rosto de tirar o fôlego. Sua estrutura óssea faria um escultor chorar de alegria, e sua boca de contornos firmes, seu nariz retilíneo e seus olhos azuis intensos lhe conferiam uma beleza selvagem. A não ser pelos olhos ligeiramente estreitados, sua fisionomia denotava uma impassibilidade total”.

Lembro-me de ter pensado um “Uau!”. Achei bem escrito, senti a tensão entre os dois. Pensei que iria facilmente me apaixonar por esse homem e que achei que adoraria a história.

Ledo engano.

A partir daí, o enredo vai se desenrolando tão rápido, mas tão rápido, que eu fiquei tonta, sem conseguir acompanhar. Para que ninguém pense que estou exagerando, aí vai um esquema:

  • Segunda-feira: ela e Gideon se veem pela primeira vez e, após trocar meia dúzia de palavras, ela já se refere a ele como “Deus do Sexo”. (Suspiro) É.

  • Terça-feira: eles se encontram no elevador e ele pergunta, casualmente, como foi seu primeiro dia de trabalho. Gideon sai do elevador já com as mãos nas costas de Eva, guiando-a (???) e só tira quando vê Cary esperando por ela.
  • Quinta-feira: ele pergunta sem rodeios se ela está dormindo com alguém. Quando ela fica surpresa, ele responde: “Porque eu quero comer você, Eva. Então, preciso saber se tem alguém atrapalhando meus planos”. Sério.
  • Sexta-feira: ela decide que não vai ceder e está irritadíssima! Mas eles se encontram no elevador, ele a carrega até seu escritório e, em uma conversa sem pé e nem cabeça, os dois acabam se beijando e quase se atracam no sofá. Decidem, então, que vão negociar os termos do “relacionamento” sexual na próxima segunda-feira, durante o almoço. Mas, sem revelar mais detalhes, posso dizer que acabam conversando naquela mesma noite.
  • Sábado: eles se atracam pela primeira vez mas ele reage como um idiota.
  • Segunda-feira: ela está apaixonada e ele já quer um relacionamento de verdade com ela.
Pronto. Simples assim. E não se preocupem, porque tudo o que eu falei acontece até mais ou menos a página 100.

Agora vamos aos protagonistas.
Sylvia Day, escritora

Ao contrário da maior parte das outras mocinhas desses romances, Eva Tramell já é uma mulher experiente, já teve outros relacionamentos sexuais e amorosos, o que já é um ponto a seu favor. Não tem nada de ingênua, além de ser bonita e sexy. Tem um grande trauma no passado – o que, aliás, já deu para notar que é o grande apelo do livro. Devido ao tal trauma, ela fez anos de terapia e, por isso, é consciente de si mesma, de seus limites e, até certo ponto, segura. Mas, como personagem, ela... Não me chamou atenção. É claro que grande parte do comportamento dela é movido pelo trauma que sofreu mas, mesmo assim, não me convenci de que Eva era o que a autora queria que ela fosse. Uma mulher inteligente? Ela não me pareceu burra mas, em momento algum, a inteligência dela se destacou, apenas seu grande esforço no trabalho. Uma mulher determinada? Em um ou dois pontos, ela é, sim, determinada. Mas, em outros cinco ou seis, ela desiste fácil e muda de ideia ainda mais facilmente. A única coisa que Eva realmente me convenceu era que ela desejava Gideon como nunca desejou outro homem.

Sobre Gideon Cross. Este é a personificação (podemos usar essa palavra para o personagem de um livro?) da contradição. Tudo bem, Gideon é lindo e tem um sex appeal fantástico. Tudo bem, a mulherada morre por ele e todas o paqueram. Mas o homem direto, decidido, CEO, controlador, que diz a uma mulher na terceira vez em que se veem que quer levá-la para cama, de jeito nenhum agiria como Gideon age em grande parte do livro. Além disso, a autora parece não se decidir sobre o verdadeiro perfil dele. Primeiro diz-se que Gideon vive circulando com mulheres por aí. Depois, ele fala que transou mais com Eva em duas semanas do que nos últimos dois anos. Primeiro, ele diz que não sabe sobre relacionamentos mas, logo em seguida, descobre-se que ele já foi noivo. Ele diz que não sente prazer em bater ou infligir dor mas logo vira-se para Eva e diz que se ela fizer isso ou aquilo, vai dar uns tapas na bunda dela. Ele é inseguro e não sabe expressar seus sentimentos mas, em menos de uma semana, vira para Eva e diz: “Quero ser seu”. É o tipo de coisa que me faz duvidar do personagem. Eu não acredito em Gideon. Ele não me convence. Não é coerente. E nem mesmo carismático. É apenas sexy, bonito, rico e possessivo. Mais nada.

Como eu disse, a trama se desenrola muito rápido, deixando o leitor tonto. Várias vezes eu tive que voltar para ver se estava mesmo entendendo a história... E olha que me considero pelo menos um pouquinho inteligente. Achei que o problema pudesse ser eu, até que comecei a contar o enredo a uma amiga e ela disse: “nossa, estou achando essa história muito mal escrita, sem relação nenhuma com nada”. E é verdade. A história parece não ter ligação, não ser conectada. O tempo todo dá a impressão de que os fios estão soltos. Mas, até aqui, ainda suspirei e relevei. É uma trilogia. Vamos esperar que nos próximos livros as pontas se liguem, certo?

E isso me deixou muito triste. A lição da série “Crossfire”, aparentemente, é nos convencer de que duas pessoas traumatizadas podem ter um relacionamento saudável e feliz, mas não achei que a autora tenha sabido levar a coisa. A história não está bem contada ou conduzida. Os acontecimentos são forçados e nada me pareceu natural. Fiquei muito triste porque é uma ideia boa mas muito, muito mal aproveitada.
 
Também há situações sem pé e nem cabeça na trama. Uma orgia que ainda não me faz o menor sentido. Um jantar em que Eva se vê entre a ex-noiva de Gideon e uma pretendente sem o mínimo amor próprio, onde a tal ex-noiva ainda diz que foi o maior erro da vida dela ter terminado tudo com Gideon... Francamente! Sylvia Day é autora de alguns best-sellers! Faça-me o favor e escreva romances com cenas mais maduras!

Porém, tenho um elogio a fazer sobre o livro: as cenas são realmente sensuais. Não só as cenas quentes em si mas, o tempo todo, a tensão sexual foi bem palpável. Fiquei convencida de que Gideon e Eva se atraem como ímãs, apesar dos pesares. Também gostei que a tradução brasileira não resolveu suavizar o vocabulário e a forma como as coisas são contadas. Eles dizem mesmo muitas coisas “sujas”, para não dizer outra coisa...

Enfim, não gostei do primeiro livro da trilogia “Crossfire”. Mas sim, vou ler o próximo, “Profundamente Sua”, que, aparentemente, sai no Brasil em janeiro de 2013 - se o mundo não acabar, claro. Quero saber, afinal, como Eva e Gideon vão superar os traumas, como as pontas soltas vão se encaixar – se é que vão – e, principalmente, se Sylvia Day vai saber como conduzir a história de uma forma mais convincente...

Abração palmense (Stéf Rhoden)


Ficha Técnica 
Título: Toda sua
Autora: Sylvia Day
Ed. Paralela | 2012 | Brochura | 280 páginas


Trilha Sonora: "Mercy" (Duffy)

6 comentários :

  1. Hum, francamente, entre "Toda Sua" e "50 tons", preferi o "Toda Sua". Concordo com a maior parte de sua crítica, mas acrescentaria outro fator: a curiosidade. Foi o que, na verdade, me moveu o livro inteiro e me fez ler o segundo, e me faz esperar o lançamento do 3º (em inglês mesmo). Todos os traumas... Demorou séculos para a Eva revelar qual era o dela, e a história do Gideon foi pouco revelada até o final do segundo, deixando a curiosidade atiçada para descobrir, afina, qual é o grande trauma dele!

    Mas eu aconselharia a você ler um outro livro, chamado "Luxúria". Sim, do mesmo estilo de apelo erótico e tals, mas eu achei ele mais... REALISTA. Sério, reparou como todos esses livrinhos eróticos são com caras cheios da grana q podem pagar tudo? Nesse "Luxúria", são pessoas NORMAIS, com empregos normais (ok, ser escritor não é bem um emprego normal rs). Mostra que o carinha gosta de relação sadomasoquista, e a escritora que quer conhecer resolve experimentar. O livro é quase didático; não quer dizer que quer ler vai querer experimentar, mas, como leitor, consegue-se entender o que as pessoas que praticam essa opção querem sentir, diferente de "50 tons" e até de "toda sua", que em nada explica sobre isso.
    Esse "Luxúria", sim, merece ser lido, e acredito que você terá uma boa opinião sobre ele ^^

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  2. Curioso o comentário acima da Izandra pq eu ia enfatizar exatamente esse detalhe de que a maioria dos protagonistas destes livros que entraram na "moda" são muito bem estabelecidos na vida, financeiramente falando. Outro detalhe é que sempre tem um trauma em seus passados... E acabam lidando com isso de formas diferenciadas de sexo.

    Não leria este "Toda Sua" (título HORRÍVEL que mais parece de filme pornô... Se passar na Globo, o locutor dirá que "esta safadinha vai aprontar todas na sua Tela Quente") mas fiquei muito curioso por este "Luxúria"... Baixando PDF em 3, 2, 1... (KJM)

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  3. Izandra, eu estava mesmo pensando nisso enquanto escrevia esta resenha. Eu li alguns livros "Sabrina" quando adolescente e lembro de ter estabelecido um paralelo: as mocinhas são geralmente fortes, embora aparentem fragilidade e, claro, virgens (e se não são virgens, tiveram apenas uma única e péssima relação sexual). Os caras são podres de ricos, têm um trauma no passado (geralmente uma relação que os deixou com medo de se apaixonarem novamente) e tratam as mulheres como objeto.
    Então, anos depois, li "Cinquenta tons". Apesar das conexões também estarem na cara, fiz mais ligações com "Crepúsculo", já sabendo se tratar de uma fanfic, e vi que Grey era parecido com Edward em vários sentidos. Mas quando li "Toda sua"... Impressionante como os caras sempre são parecidos! É bem plausível que nós, mulheres, gostemos de sair um pouco da realidade e gostemos de personagens absurdamente ricos, que gostemos de fantasiar suas vidas cheias de luxo... Mas e quanto aos traumas? Grey tem um trauma grande no passado e Gideon, pelos indícios que tive até aqui, também me pareceu ser igualmente traumatizado. Será que nós, mulheres, gostamos de homens complicados e traumatizados? Será que eles inspiram nossos instintos maternos e a vontade de querer protegê-los de tudo, incluindo deles mesmos? Ou será que as autoras desses romances querem retratar mais uma fantasia das mulheres: mudar o homem que nós amamos, e o único jeito de fazer isso foi colocando coisas horríveis na história deles? Não sei... Talvez faça uma pesquisa sobre isso... hehehe...

    Eu tentei escrever a resenha sem comparar "Cinquenta tons" e "Toda sua". Acho que consegui, mas aqui nos comentários posso dizer que gostei muito mais de "Cinquenta tons". Da história, do enredo, de Ana e Christian... Achei que E.L.James escreveu uma narrativa mais romântica, mas Sylvia Day bem mais sexy. Mas pelo menos Ana e Christian são pessoas coerentes... Christian é muito mais bem construído do que Gideon e Ana é mais convincente como personagem.

    Vou procurar esse "Luxúria". Muito obrigada pela dica!! Estava mesmo sentindo falta de "gente normal", depois de ler quatro livros seguidos com bilionários riquíssimos lindos e sensuais.

    Beijão!

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  4. Mr. Moon... Basicamente já comentei o que você falou na resposta para a Izandra...

    Mas vamos ler esse tal de "Luxúria"? Fiquei curiosa...


    (Imaginando aqui a propaganda da Globo para o filme)... hahahahaha...

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  5. Não vejo nada de inacreditável em dizer de cara q quer comer uma mulher e ela ceder. Acontece. Se vc fizer com 100 mulheres, vai funcionar com umas 10. Até q elas espalhem a notícia e vc fique queimadão. Claro, se vc é um ricaço altamente bonito e charmoso essa proporção sobe. Mas se vc é um fedorento, pobre e desengonçado ela baixa (a zero, mto provavelmente). E se vc mora num vilarejo de 1000 habitantes e não tem nenhuma perspectiva de sair de lá, uma vez queimado, se fodeu. Mas se vc é um cidadão do mundo, bem relacionado e influente, ou um astro famosão q pode rodar o globo intimando quem aparecer pela sua frente, é bem fácil encontrar outros grupos de mulheres. O mais inacreditável mesmo é um cara desse, na primeira semana de foda, querer largar tudo pela guria. Não é impossível, mas é bem mais difícil uma guria liberar prum bonitão cheio da grana na primeira intimada.

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  6. hahahahahaha.... Verdade, Paulo. Concordo com você. Eu não fiquei chocada com o que ele falou, mas pelo pouquíssimo contato que eles tiveram. Foi praticamente: "Oi, tudo bem? Quero te comer".

    Mas o que realmente me tirou do sério foi justamente o que vc falou no final: nem foi na primeira semana, foi na primeira vez mesmo! E ele já quer ter um relacionamento com ela. Enfim...

    Obrigada por ter lido.

    Beijão!

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