[GIBI REVIEW] "Astronauta - Magnetar", de Danilo Beyruth

Capa por Danilo Beyruth & Cris Peter
(Ed. Panini Comics)
Resumo bobo da história: Em Magnetar, Danilo Beyruth faz uma releitura ousada do Astronauta de Maurício de Sousa, em que o herói fica "náufrago" no espaço e luta não apenas pela sua sanidade mental, mas também pela vida.

Trecho: "Este lugar... A solidão... Estão me derrotando. Preciso sair daqui. Ficar é suicídio. Se a nave não funciona, preciso encontrar outra forma de escapar. (...) Agora, é tudo ou nada"

Resenha: Muitos costumam comentar que tanto os quadrinhos quanto os filmes feitos no Brasil não tem gênero definido. Nossos criadores podem escrever histórias infantis e ir além, misturando elementos de outros gêneros, sem desrespeitar ou negligenciar a inteligência de quem lê.

Confesso que não me deixo levar muito por rótulos. Como já disse uma vez, isso é coisa de quem precisa afirmar para si mesmo que está acima de nós, tolos mortais, geralmente usando de muitas palavras difíceis, para que pareçam sábios e experimentados. Porém, isto está longe de ser a verdade...

E chegamos ao primeiro lançamento do selo "Graphic MSP", em que artistas nacionais dos mais diversos estilos de histórias em quadrinhos podem mostrar suas versões dos amados personagens criados por Mauricio de Sousa, que, mesmo a contragosto, sabe que criou a Turma da Mônica, dentre outros.

De cara, uma história do Astronauta. Uma decisão ousada, além de ser um desafio e tanto. Afinal, o Brasil - curiosamente - não é conhecido por consumir ficção científica produzida - no país ou feito lá fora - em larga escala. O que é blockbuster chega e "faz a festa" mas o que não é mainstream amarga a falta de conhecimento, mesmo que tenhamos grandes escritores do gênero por aqui, infelizmente sem grandes sucessos.

O personagem sorridente usando seu uniforme parecido com um ovo laranja e azul - embora solitário em sua nave de formato esférico - sempre se encontrou com dilemas espaciais de simples resoluções em suas histórias originais, mesmo que, ao final delas, lembrasse que Ritinha, seu grande amor, ficou para trás e, quem sabe, um dia, talvez pudesse reavê-la em seus braços. Lembrou do Surfista Prateado? Claro que sim! Mas poderia ser também um caminhoneiro que, por conta da grande quantidade de trabalho, não consegue ficar com a garota que ama e vê sua profissão atrapalhar o andamento de sua vida...

Página de "Astronauta - Magnetar",
por Beyruth (arte) e Peter (cores)
Nesta história, o personagem encara um fenômeno estelar e precisa catalogá-lo. A missão era relativamente simples mas um descuido acaba por prendê-lo no local, deixando com poucas opções de saída, uma vez que a nave acaba "quebrando" no processo. E ele tem de conviver com outra personagem, a quem está muito familiarizado: a solidão.

Como muitos sabem, a solidão veste cinza e tem sempre um sorriso amarelo em seus lábios semicerrados. Porém, estar sozinho é muito diferente de ser solitário. E, talvez, essa seja a grande lição do protagonista desta empolgante história, que desconstrói o personagem que admirávamos quando crianças e o revela, pintando-o em outros tons nada cinzentos a uma geração que já o conhecia mas não o via há muito tempo, como aquele amigo da época de infância.

O texto e o traço é comandado por Danilo Beyruth, que já nos brindou com seu personagem Necronauta e o especial Bando de Dois. Em ambas as áreas, consegue dominar e mostrar sua visão com maestria dos grandes contadores de histórias da "nova" geração.

As belas cores de Cris Peter cumprem seu papel de criar o clima ideal de cada cena, sendo cálidas quando necessário e aventureiras quando a trama assim pede. Fiquem de olho nela pois é outro talento nacional da arte sequencial que, em muito breve, veremos despontar...

E a edição é feita pelo sempre competente Sidney Gusman, que mostra como é, realmente, editar uma história em quadrinhos a partir do zero. Seu zelo pelo projeto e consequente divulgação pelas redes sociais causaram alvoroço desde o primeiro anúncio até os famosos previews. O público que o acompanha pode comprovar que valerá muito a pena comprar seu exemplar e "desgustar" este "biscoito fino". 

"Mas então temos um novo clássico dos quadrinhos mundiais? É um novo Watchmen, tio Kal?".

Não.

Nós não precisamos nem mesmo buscar este tipo de reconhecimento e também não há a menor necessidade de ter qualquer história com este tipo de importância agora... Esta é uma história simples, objetiva e muito bem feita. Possivelmente, entrará na lista de algum programa do governo brasileiro para ser distribuída em bibliotecas e escolas públicas no Brasil e países de língua portuguesa pois possui esse tipo de potencial didático para ser utilizado em vários tipos de leituras. E isso é tão importante quanto. 

Vá à banca. Até o preço é convidativo. E acredite em mim: vai ser difícil sair ileso de Magnetar...

Um amigo pediu este exemplar emprestado e Kal J. Moon respondeu, com semblante macambúzio: "Desculpe, estranho, eu voltei mais puro que o céu...".

Ficha Técnica
Título: Astronauta - Magnetar
Roteiro e arte: Danilo Beyruth
Cores: Cris Peter
Ed. Panini Comics | 80 páginas | Ficção científica

Sobre os autores

Danilo Beyruth
Danilo Beyruth é paulista e nascido em 1973. Foi diretor de arte na agência de propagandas DPZ por vários anos, de onde saiu para formar o estúdio de ilustração Macacolandia, que trabalhou com algumas das mais importantes agências de publicidade do Brasil. Começou a trabalhar com quadrinhos em 2007 quando publicou a edição independente - ou fanzine - "Necronauta", rendendo-lhe tamanho destaque a ponto de ser convidado a participar da antologia internacional "Popgun Volume 3" (Image Comics) com este personagem e, em 2009, sendo publicado no Brasil em forma de coletânea pela editora HQ Maniacs. Participou também de outras coletâneas como "Jesus Hates Zombies", "Fierro Brasil" e "MSP+50", onde desenhou a Turma do Penadinho. Em 2010, lançou "Bando de Dois" pela editora Zarabatana, que ganhou os prêmios Ângelo Agostini e HQ Mix, além de ter sido selecionada para integrar o acervo das bibliotecas escolares pelo PNBE, como já havia acontecido com Necronauta. Atualmente, voltou a trabalhar no mercado publicitário e iniciou a produção de seu novo projeto: São Jorge.
Cris Peter

Cris Peter é gaúcha e trabalha com colorização digital de histórias em quadrinhos para o mercado internacional há quase 10 anos. Atualmente trabalha na HQ Casanova (Icon/Marvel Comics), de Matt Fraction (roteiro), Fábio Moon e Gabriel Bá (arte). Já trabalhou com a Boom Studios, DC Comics, Vertigo, Dark Horse, Image. Para ver seus atuais trabalhos, visite sua página no Facebook e seu perfil no twitter.









Trilha Sonora: "Rocket Man" (Sir Elton John)

5 comentários :

  1. Comprei Magnetar por indicação do Kal e ainda não consegui digerir as nuances da historia, não há um Sexta-feira ou um Wilson para manter a sanidade do personagem. Ainda não tive como tirar as conclusões da história por que na primeira leitura a Arte deixou-me um pouco perplexo vou dar um tempo para rele-la ai terei minhas proprias conclusões

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  2. Ótima a resenha! Me deixoum ais louco ainda pra ver.


    "Um amigo pediu este exemplar emprestado e Kal J. Moon respondeu, com semblante macambúzio: "Desculpe, estranho, eu voltei mais puro que o céu...". "

    Esse trecho aqui me arrepiou.

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  3. Hahahah!!! Puxa, pessoal, eu agradeço, de coração, a acolhida por esta humilde resenha pois só tentei passar aquilo que senti quando li. Esse feedback é mesmo muito bom.

    Considero esta edição uma das melhores de 2012 dos quadrinhos MUNDIAIS...

    E o amigo que me pediu emprestado (quase, na verdade, pois ele não falou e eu tirei de suas mãos depois de alguns momentos em que ele quase babou em cima da edição) foi justamente o Jefferson, a quem dediquei esta resenha com esta "citação" à canção "Astronauta de Mármore", versão brazuca do Nenhum de Nós para "Starman" de David Bowie...

    Abração, povo!! (KJM)

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  4. Ainda não li e não engoli essa parada de MSP querendo lançar moda. A única coisa que me pesa no coração (desde que voltei mais puro do inferno) é que o BK não está aí pra ver algo que ele sugeriu, há uns cinco anos atrás: que o Maurício liberasse os personagens mais obscuros dele (como o Formigão por exemplo, dado pelo Zé) para novos autores dando crédito e tudo mais. Pena (ou não, sei lá, BK era BK)que ele iria dizer que tudo era uma merda.

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  5. Não acho que é lançar moda, não, Marlo... Acho, simplesmente, uma série de gibis bem feitos e com gente competente trabalhando neles. Ainda vem mais três na leva, de outros autores. Me parece uma proposta simples e com tudo pra dar certo. Este primeiro número já chegou arrasando e merece o respeito de quem lê quadrinhos por mais de 30 anos como eu. (KJM)

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