[RESENHA] "À Espera de um Milagre", de Stephen King

Título: "À Espera de um Milagre"
Autor: Stephen King
Literatura Americana - Romance | 230 páginas | Editora Objetiva | 2000-2001
(publicado originalmente em 1996)


Sinopse: Paul Edgecombe é um homem velho. Muito velho. E no asilo para idosos onde agora passa seus dias, Edgecombe é assaltado por lembranças do passado. Penitenciária de Cold Montain. O macabro corredor da morte. Frios e cruéis assassinos. Por muito tempo, Edgecombe foi guarda do presídio onde ficavam os condenados à morte e são muitas as histórias que insistem em visitá-lo em seus dias agora vazios. Mas há uma em especial que o atormenta. Há uma em especial que não deixará Edgecombe em paz até contá-la em detalhes. Todos os detalhes. É a assustadora história de John Coffey, o gigante assassino de duas meninas. Acompanhe Paul Edgecomb neste mergulho num passado de ódio, vingança e... milagres. O corredor da morte espera sua visita.

Trecho: "Durante os meus anos como superintendente de bloco, nunca todas as seis celas ficaram ocupadas ao mesmo tempo - é preciso agradecer a Deus pelas pequenas benesses. O máximo foi de quatro, brancos e pretos misturados (em Cold Montain não havia segregação alguma entre os mortos-vivos) e isso era uma pequena amostra do inferno. Um deles era uma mulher, Beverly McCall. Era preta como um ás de espadas e linda como o pecado que você nunca teve coragem suficiente para cometer" (Paul Edgecombe)

"- Seu nome é John Coffey.
 - Sim, senhor, patrão, como o que se toma com leite, só que não se escreve do mesmo jeito
"
(Díalogo entre Paul Edgecombe e John Coffey)

Resenha: "Tenha em mente o final de sua história", reza uma das "regras" para escritores. Mas isso simplesmente não se aplica a Stephen King. Um grande autor não precisa seguir regras? Não sei. King não precisou seguir esta e explico...

A ideia para este livro veio numa de suas muitas noites de insônia. Ao invés de contar carneirinhos ou tomar leite quente, King tem por hábito elaborar enredos mentalmente, com personagens, construídos e outros detalhes, como se estivesse numa máquina de escrever ou num computador. Normalmente, ele acaba abandonando a "história" quando acorda. Porém, ele já tinha em mente a ideia de uma trama passada no corredor da morte com um condenado que se torna afeito de truques baratos de mágica. Até que um dia consegue "desaparecer". Desenvolveu, mexeu mas não sentiu-se satisfeito com a ideia e abandonou-a.

O título original da história - "The Green Mile" (algo como "A Milha Verde") é uma referência à distância percorrida pelos condenados à morte até o local onde está a cadeira elétrica - o piso era da cor verde. Aqui no Brasil, foi adaptado para "O Quilômetro Verde", sendo que "milha" é uma medida de distância completamente diferente. Esse detalhe também é executado durante a introdução escrita pelo próprio King, dizendo quanto era o valor de um livro em formato brochura e utilizando a moeda Real ao invés de dólar. Nada que prejudique a leitura mas poderia ter melhor adaptação, uma vez que é um livro e não um filme dublado.


Algum tempo depois, seu agente para vendas dos direitos autorais de sua obra no exterior veio com uma ideia de que poderiam oferecer algo novo às editoras: um livro serializado, em pequenas brochuras, a um preço menor com um grande autor. Embora estivesse finalizando a revisão de um outro romance, King ficou muito empolgado com a oportunidade. E, mesmo que não tivesse o final dessa história em mente, sabia como iniciá-la e poderia prosseguir em seis partes satisfatórias...

Confesso que só li muito tempo depois de ter assistido ao filme. E que bom que ocorreu desta forma, uma vez que todos nós temos o mau costume de comparar um e outro. Quando terminei a leitura, percebi que o filme era um mero e esforçado resumo do que se trata a trama exposta no livro - que, talvez, pudesse ser adaptada em sua totalidade numa minissérie, com tempo suficiente para explorar melhor alguns arcos. Isso não quer dizer em momento algum que o filme seja ruim ou mal adaptado. Longe de mim tal pensamento...!

E o livro é tão detalhado - e detalhe é uma das principais características da escrita deste autor, fazendo-nos "enxergar" cenários, situações e até mesmo o jeito de alguns personagens falarem (prestem bastante atenção à descrição do assassinato das duas irmãs e como Coffey é encontrado abraçado) - que posso dizer, sem medo de errar, que, mesmo não sendo contado de forma linear, temos como compreender cada salto no tempo, cada ida e volta, cada meandro utilizado para urdir essa intrincada trama.

E falando em personagens, TODOS são importantes à trama. Tanto o cajun Delacroix, que treina o camundongo apelidado Mr. Jingles (aqui, Sr. Guizos), assim como Toot-Toot, que treina com os guardas as cenas de execução na cadeira elétrica, quanto Brutal, o guarda esquentado porém de bom coração. Temos a loucura de Wild Bill, um preso perigosíssimo, que tem relação com todo o desenvolvimento da história, embora só descobrimos isso quase por acaso, como numa história de Agatha Christie! Tem também, claro, Percy Wetmore, um homem - ou melhor, rapazote - que realmente consegue tirar qualquer um do sério com seu mimo e autoritarismo desnecessário, provando que mesmo sendo uma figura de autoridade, não possui nenhuma, nem se quisesse... Mas seu fim é adequado, hehehe!

Outro ponto importante a ser detalhado é justamente a construção do personagem John Coffey. Em momento algum, Coffey parece ser outra pessoa. O primeiro encontro entre Paul Edgecomb e Coffey é marcante pois, para quem não conhece a história, tem-se a impressão de que ele é um assassino corpulento e brutal. E quando descobrimos, ao fim da leitura, quem Coffey REALMENTE é - e isso NÃO É dito claramente -, entendemos o real assombro e tristeza que Edgecomb carregou pela vida inteira, após aquele fatídico dia em que... Bem... Não vou contar pois tenho certeza que muitos vão querer saber aos poucos.

Essa é uma daquelas histórias pra se ler devagar, sem pressa de acabar. E quando isso acontecer, tenha certeza que vocês vão até querer ler de novo... E, sim, vão se emocionar muito ao lerem uma cena que só tem no livro, revelando o que aconteceu com a esposa de Edgecomb.
Paul Edgecomb (Tom Hanks)
& John Coffey (Michael Clarke Duncan
Adaptação para o cinema
O filme estreou em 1999 com roteiro e direção de Frank Darabont (uma espécie de especialista em adaptações dos livros de Stephen King para o cinema como "Um Sonho de Liberdade" e "O Nevoeiro"). O ator Tom Hanks interpretou o papel de Paul Edgecomb e coube à Michael Clarke Duncan defender o enigmático porém simpático John Coffey, sendo indicado aos prêmios Globo de Ouro e ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Duncan faleceu recentemente, em 03/09/2012, já deixando saudades como o "grandalhão" preso que muda a vida de todos ao seu redor num filme emotivo e edificante...

Kal J. Moon leu este livro vendo em sua mente a imagem de todos os atores do filme. Mas vai sentir muita saudade daquele grandalhão...

Trailer oficial do filme "À Espera de um Milagre"

9 comentários :

  1. Eu nunca li o livro. Muito menos vi o filme (apenas algumas poucas partes). Esta foi a melhor crítica que vi desta história de Stephen King.
    Pretendo ler o livro em breve, e logo após ver o filme.
    Ótimo texto, até mais!

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    1. Faça isso, Layla. E acredite: o livro vai te chocar ainda mais do que o filme. Principalmente na parte onde vemos o que ocorreu com a esposa do protagonista. A cena é cinematográfica mas vc vai entender porque não foi adaptada pra entrar no filme. Depois me conte o que achou... Abração carioca! (KJM)

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  2. Stephen King só escreveu este livro. Bem, ou melhor, só este que presta... E tenho dito.

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    1. Marlo e Mac... King é oito ou oitenta... Como estudioso de sua obra, devo admitir que ele tem muitos altos e muitos baixos também... Ele mesmo admite que algumas ideias não deveriam ter sido publicadas mas alguns editores simplesmente não entendem da mesma forma e a grife Stephen King vende e muito. No começo da década passada, ele vendeu a ideia de publicar um livro online, pagando-se bem pouco pelo download. Escreveu alguns capítulos e nem sei se a obra foi concluída, uma vez que ninguém mais se interessou por ela e, claro, muita gente deve ter simplesmente ignorado por não ser um bom texto. Mas ele tem grandes livros, sim. Christine, A Zona Morta, À Espera de um Milagre, Saco de Ossos, Carrie, além de muitos contos como Conta Comigo, O Nevoeiro, Um Sonho de Liberdade, dentre muitos outros. Não devemos nunca confundir uma péssima adaptação cinematográfica (como O Iluminado, Christine, The Stand - A Dança da Morte, O Apanhador de Sonhos) com a obra do autor. King tem justamente um grande problema nesta área. Tirando Darabont, poucos diretores e roteiristas conseguiram acertar o tom de sua obra. Considero a obra de King no cinema apenas com Carrie, Conta Comigo, Um Sonho de Liberdade, À Espera de Um Milagre e O Nevoeiro. O resto é lixo. Literalmente... (KJM)

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  3. Kal, parabéns pela resenha. Gostei do que li. O quatro estações é realmente um livro que surpreende o leitor com contos excelentes e outros que ficam a desejar. Enfim, ngm é perfeito e King não foge a regra. Eu sou suspeita quando o assunto é SK ehehehe nem preciso entrar em detalhes, né?! bjs (Mac)

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    1. Hehehe... Melhor não, Mac... Se King já é especialista em detalhes, imagine vc, fãzoca do cara, esmiuçando seu trabalho num simples comentário? Vai acabar os caracteres disponíveis, hehehe... (KJM)

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    2. kkkk tem dias que estou assim mesmo...econômica!!!kkkkk :) (Mac)

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  4. Oi adorei sua resenha....mas vc já leu o livro reverso escrito pelo autor Darlei... se trata de um livro arrebatador...ele coloca em cheque os maiores dogmas religiosos de todos os tempos.....e ainda inverte de forma brutal as teorias cientificas usando dilemas fantásticos; Além de revelar verdades sobre Jesus jamais mencionados na história.....acesse o link da livraria cultura e digite reverso...a capa do livro é linda ela traz o universo de fundo..abraços. www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem..

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