[GIBI REVIEW]: O Poderoso Maximus 01 e 02, de Alan Yango


Capa da edição 01,
por Carlos Paul & João Silveira

Sinopse: Em suas primeiras duas edições impressas, o super-herói Maximus orienta uma gangue juvenil, impede uma jovem de suicidar-se, enfrenta um super-vilão, dentre outros atos heróicos.

Trecho: "Isso é o que mais me agrada. Saber que, apesar de toda insegurança e criminalidade vigentes, existem pessoas que se importam e trabalham pelo bem-estar do próximo. Esses, sim, são os verdadeiros heróis desta cidade" (Maximus)
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Resenha: Há quem compare os super-heróis brasileiros ao uísque nacional. Pode-se até consumir mas dificilmente gostará a ponto de trocar o similar estrangeiro pelo que é fabricado em nosso país. Outros defendem ferrenhamente, em coro quase religioso, que não temos a devida atenção aos similares nacionais justamente por conta de consumirmos o que vem de fora há tanto tempo que já nos acostumamos com os estereótipos estabelecidos e rejeitamos naturalmente qualquer tipo de iniciativa tupiniquim neste "gênero" em voga há mais de setenta anos. E culpa-se editoras por comprarem os direitos de publicação dos supers estrangeiros a um preço muito menor do que o custo de uma revista produzida inteiramente por aqui, o que, em primeira instância, acarretaria a falta de estímulo em trabalhar no país, buscando oportunidades benvindas em outros horizontes e cruzando fronteiras em outros países...

Bem, não acredito em nenhuma das duas vertentes. Pode até soar um pouco inocente de minha parte mas acredito em boas histórias. Independente de onde o personagem foi criado ou de onde quer que seja sua "base de operações", se a história for suficientemente bem escrita e desenhada - sim, o texto SEMPRE vem primeiro, apesar da arte ser o que chama a atenção num primeiro momento mas não se sustenta se a trama não for das melhores - e, acima de tudo isso, se a revista onde o personagem for apresentado for um bom PRODUTO.

Se for um bom produto, terá caráter comercial. Terá público-alvo. Terá viés de atravessar as fronteiras da língua estrangeira quando for devidamente traduzida E adaptada. E chamará a atenção se tiver, como todo bom produto, uma divulgação apropriada e direcionada a quem se destina.

Dito isso - ou melhor, esclarecido este ponto de vista, estritamente pessoal e que não deve ser encarado como regra ou verdade absoluta -, chegamos ao momento em que temos de analisar os objetivos das histórias desse ser super-poderoso que atua no norte do Brasil, mais precisamente em Belém do Pará - ainda que as histórias não citem isso de forma clara.

Numa belíssima capa com layout de Carlos Paul e tintas de João Silveira, a primeira edição (publicada em Fevereiro de 2011) traz quatro histórias curtas, como micro-contos, onde, independente da qualidade de roteiro ou arte, conseguem nos dar uma breve noção de quem é o personagem, quem são alguns coadjuvantes e antagonistas, além, claro, de estabelecer alguns conflitos emocionais relevantes a serem considerados pelo leitor numa análise mais profunda.

Arte de André Ciderfao
Em "Chances" (com roteiro de Alan Yango e arte de André Ciderfao), Maximus presencia uma gangue de jovens assaltando uma mulher e impede um deles de prosseguir com a bolsa roubada. Há uma reflexão do narrador onisciente explicando os atos do pequeno meliante e a aura do herói pairando sobre a situação, influenciando um dos jovens a refletir sobre seus atos futuros. O roteiro é frágil, talvez por não ter sido desenvolvida por conta do espaço limitado de páginas, não levando o leitor à reflexão de forma satisfatória. E a arte amadora de Ciderfao - embora esforçada porém com muitos problemas de anatomia, perspectiva e, principalmente, de narrativa visual - depõe contra a história.

Na segunda história, "Isabela" (novamente com roteiro de Yango, porém com arte de Elthz - que, na segunda edição assina como Emmanuel Thomaz), tem uma premissa melhor resolvida: mostra-nos a rotina do professor de literatura Max Marins (alter-ego do herói) e, em seguida, o ato de impedir uma jovem - sua aluna -, de cometer suicídio, porém como um super-herói.

Arte de Emmanuel Thomaz
Como a história é curta, contar mais do que isso seria dar um grande spoiler. Mas podemos dizer que alguns segredos são revelados e tudo termina tragicamente. Contado em grande parte por recordatários - que, hoje em dia, substituíram os "balões de pensamento" de outrora - o texto convence, embora ainda tenha de melhorar sua estrutura. Porém já vemos um grande avanço em relação à história anterior. Já a arte, mesmo com um estupenda narrativa, peca justamente por oscilar muito em qualidade de uma página a outra com seu estilo "sujo" e quase rascunhado. Algumas cenas funcionaram bem enquanto outras não foram tão inspiradas, com muitos problemas de arte-final. Mas reafirmo que, aqui, a arte nos convence a continuar lendo, independente de tudo, pois "conta" a história...

O vilão "Maioral"
por Sebastião Seabra





Depois vem "Quem é o Maioral?" (com outro roteiro de Alan Yango e arte de Sebastião Seabra), contando uma típica história de embate entre herói e vilão. E se você também achou o rosto do vilão familiar, talvez não esteja tão enganado assim... Como aqui é utilizado o recurso narrativo corriqueiro criado para mostrar o quão forte é o herói, exatamente como nas histórias em quadrinhos dos anos 1960, não seria correto esperar qualquer tipo de ousadia deste roteiro, uma vez que ele também serve para diminuir o clima pesado das duas primeiras histórias. Entretém e só. A arte de Seabra, antigo batalhador do meio, fala por si só, mostrando o melhor de seu estilo narrativo, com seus característicos brilhos no cabelo - que lembram, muito, "pasta de dente" (sério!) - e a escolha inusitada de colocar fotos para ilustrar alguns cenários dão um toque nostálgico ao visual da história. Cumpre seu papel de entreter...

Arte de Carlos Paul
Fechando a edição, temos "Um Sinal de Esperança" (desta vez, com roteiro a quatro mãos de Alan Yango & Diogo TC e arte de Carlos Paul - história de onde tirei a citação que abre esta resenha), mostrando, através da narração do próprio herói, uma descrição de seus sentimentos em relação a tudo o que acontece quando está salvando vidas. Mesmo tentando evitar qualquer comparação, não tem como não lembrar do personagem Samaritano da série Astro City, escrita por Kurt Busiek. E não acho isso um demérito ao personagem brasileiro e muito menos aos roteiristas, uma vez que Busiek não inventou este estilo de contar histórias. Fiz o comparativo no intuito de provar que, sim, aqui a revista alcançou o status de PRODUTO que expus no início da resenha. Houve um crescendo. A qualidade foi subindo a ponto de mostrar a miríade da personalidade do herói e seu "universo". A arte de Carlos Paul colabora e muito para que terminemos de ler a história querendo que ele seja o desenhista regular durante muitas edições... E na contracapa, outra ilustração inspirada, desta feita por Peter Vale.

Independente da oscilação na qualidade das histórias e das artes apresentadas, a primeira edição tem um conjunto favorável à compra.
Capa da edição 02, por Fabio Nahon,
Alex Barros e André Ciderfao

A segunda edição saiu em Maio de 2012 e mostra um grande amadurecimento em relação à edição anterior. Com cotas de patrocínio de academias de ginástica, loja de produtos musicais e um curso preparatório para concurso público, parte do valor de impressão pode ser pago sem sair do bolso do criador da revista. O senso de que a revista é um produto e não APENAS a realização de um sonho de infância já começa por aqui. A capa - aqui no lápis de Fábio Nahon, arte-final de Alex Barros e cores de André Ciderfao - funciona bem, com o herói vindo em direção ao leitor, furioso e olhando diretamente à sua frente, exercendo um dos conceitos básicos de layouts de capas de revistas. Isso captura a atenção do futuro comprador e faz com que ele se interesse pela edição. Acredite: isso não é um mito...

Neste número, somos apresentados apenas à história "Vitórias e Reveses" (com roteiro de Alan Yango e novamente com arte de Emmanuel Thomaz), em que uma misteriosa corporação investiga o acidente em que Maximus adquiriu seus poderes - temos a explicação disso durante o desenrolar da trama - enquanto que vemos mais um pouco do cotidiano do professor Max, seus alunos, alguns colegas de trabalho e a dicotomia de ser um herói em tempo integral, com ou sem roupa colante, impedindo um sequestro armado ou uma jovem em perigo. Aqui, o roteiro e a arte oscilam em conjunto. Embora a história não seja de todo ruim, também não empolga como a já citada "Um Sinal de Esperança". Já a arte de Thomaz mostra-se um tanto inadequada para este tipo de história em que temos a mistura de realismo nu e cru com a fantasia na crença de que um ser encapuzado salvará nosso dia.

Entendo que muitos autores não podem pagar os artistas de cada edição com não mais do que uma revista quando for publicada e que estes mesmos artistas - na grande maioria, amigos de longa data que querem colaborar na realização do sonho - também não cobram por seus serviços por amizade mesmo e por ter a oportunidade de mostrar seus trabalhos. Eu entendo tudo isso. Mesmo. Mas muitas pessoas em nosso país não entendem da mesma forma que eu. Muitos só querem ver o lado negativo. E, infelizmente, muitas das vezes, temos de dar ouvidos a eles pois, na verdade, não é o lado pessimista mas, sim, o lado realista. O sal arde quando atinge a ferida mas cicatriza e restaura, sabe? Estamos falando da diferença entre meninos e homens. Entre artistas amadores e profissionais. Entre ideia e projeto.

Maximus
por Peter Vale
Porém, voltamos à questão levantada lá no início: isso é um sonho ou um PRODUTO? Somos amadores ou profissionais? Aprendemos as lições necessárias ou ainda teremos de cometer mais erros?

Curiosamente, a revista está vendendo bem, em eventos, revistarias, bancas e até supermercados (apenas em Belém do Pará e Ananindeua), por correio e pela internet, através do blog oficial, o que prova que, em pouco mais de um ano de lançamento das duas edições, foi criado um público fiel, que deseja mais histórias do personagem e, quem sabe, outros produtos relacionados. Futuramente? Agora? Quem sabe?

Se o personagem, de alguma forma, caiu no gosto popular, temos de oferecer ao seu público - ou seus consumidores -, algo para entretê-los enquanto não vem as próximas edições, certo? Afinal, o que temos em mãos agora é um PRODUTO e não dá mais para voltar atrás. E se vocês leram por diversas vezes a palavra PRODUTO grafada em caixa alta, também não foi por nenhum acaso. "Isto é sobre passar uma mensagem!", como diria um certo palhaço que não quer ninguém leve isso tudo tão sério.

A ótima notícia em relação a tudo isso que falamos acima é que já vi algumas imagens das páginas da terceira edição e a arte parece ter evoluído muito, principalmente em relação à arte-final. E com o crowdfunding em voga, bem que poderiam fazer uma edição especial encadernada com histórias mais longas do herói, certo?
Resumindo: Comprem e tirem suas próprias conclusões pois isso ninguém pode fazer por vocês...

Kal J. Moon já espera ser apedrejado por quem vier a ler esta resenha. "Mas, com estas pedras, erguerei meu castelo!", dizia a frase escrita no parachoque do caminhão que o atropelou...


Alan Yango,
criador de Maximus



Sobre o criador
Alan Yango é nascido e criado em Belém do Pará, nos idos de 1973,
é roteirista e desenhista de Histórias em Quadrinhos, além de
também ser formado em Direito (UFPA).

4 comentários :

  1. Oi Kal!
    Valeu pelo toque na resenha da Eddie.
    Essa história me pareceu um pouco mais maduro,não infantilizada,acho que posso dizer assim.
    A comparação feita com o uísque nacional está perfeita,nunca havia pensado assim,mas coube bem ao propósito.
    Bjos Fabi
    http://roubando-livros.blogspot.com

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    Respostas
    1. Oi, Fabi! Fica tranquila pq tô aqui pra isso... Sei como é a correria pra colocar uma resenha no ar e às vezes algumas coisas acabam passando mesmo...

      Realmente, o roteiro de Maximus é bem mais destinado ao público juvenil / adulto... Com temas sociais e uma preocupação em estabelecer o presongem como ícone... Recomendo pois é algo bem diferente do que estamos acostumados em termos de herois nacionais em geral...

      Abração e volte sempre!!! (KJM)

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  2. Há Kal J. agora vc tbm vai ter que me aturar aqui no AIL. mas brincadeiras a parte sua resenha foi show de bola, parabéns e qualquer dia vamos bater um papo na Lapa! fui!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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  3. Fala, Drive! Agradeço o elogio... Fico lisongeado mas quis ser honesto com o personagem, seu público e o criador... Bater papo na Lapa? Escolha dia e local que estaremos lá sem problemas...! Abração! (KJM)

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