[ESPECIAL “O Hobbit”] Sobre a tradução de O Senhor dos Anéis e outras inconveniências




Como em breve poderemos conferir a prequência de “O Senhor dos Anéis”, O Hobbit nos cinemas, eu iniciarei aqui uma série de matérias especiais sobre o legendarium tolkieniano, para deixar você com um pé (de preferência peludo) na Terra-Média. Iríamos começar, por sugestão do élfico Kal J. Moon, com um texto sobre as músicas que foram inspiradas na obra do professor, mas abortamos porque esta semana chegou às livrarias o livro “A Dança dos Dragões” de George R. R. Martin e ontem o pessoal reclamou que havia (pelo menos até agora) um capítulo inteiro omitido na tradução brasileira do livro. 

Pergunta: Ora, mas o que essa questão tem haver com a obra de Tolkien?
Resposta: Aconteceu a mesma coisa com a tradução feita por Lenita Rimoli Esteves e Almiro Pisetta de “O Senhor dos Anéis”.

O Hobbit e O Senhor dos Anéis foram traduzidos pela primeira vez para a língua portuguesa pela editora Artenova que lançou os livros entre 1974 e 1979. Nunca cheguei a ter em mãos uma cópia de O Hobbit (lançado em 1974), mas tenho quatro volumes de “O Senhor dos Anéis” em minha coleção.

Ao ler o livro notei que o mesmo tinha uma tradução no mínimo curiosa, pois a forma leviana como os nomes de lugares e personagens foram adaptados chamam a atenção de quem conhecia a obra original. Neste livro os nossos queridos hobbits que integram a Irmandade (Sociedade é o escambau) do Anél ficaram conhecidos como Frodo Bolsim, Pipinho Tuque, Meirinho Brendibuque e Sam Pacolé (sentiu o drama), isso sem falar no nosso mago favorito que no livro atende pelo nome de Gandalfo. 

Apesar de “O Senhor dos Anéis” ter sido concebido pelo seu autor como uma obra única, ela foi dividida por sugestão de Rayner Unwin em três partes por questões de orçamento. Porém a editora Artenova (sabe-se lá por que) resolveu dividi-la ainda mais, lançando o livro em seis volumes. Estas edições foram traduzidas por Antônio Ferreira da Rocha (os dois primeiros volumes) e Luiz Alberto Monjardim (os quatro últimos volumes) com Salvador Pittaro como revisor. A coleção é constituída dos seguintes livros:
  • O Senhor dos Anéis - Livro Primeiro: A terra mágica
  • O Senhor dos Anéis - Livro Segundo: O povo do anel
  • O Senhor dos Anéis - Livro Terceiro: As duas torres
  • O Senhor dos Anéis - Livro Quarto: A volta do anel
  • O Senhor dos Anéis - Livro Quinto: O cerco de gondor
  • O Senhor dos Anéis - Livro Sexto: O retorno do rei

Hoje em dia esta bizarra edição de “O Senhor dos Anéis” da editora Artenova é tida entre muitos dos fãs da obra do professor que tive o prazer de conhecer, como um item curioso, risível, vergonhoso, apesar de ser raro. Eu mesmo não consegui encontrar os últimos dois volumes ainda...
A segunda versão em português foi lançada durante os anos 80 pela editora Europa-América de Portugal e é considerada, por muitos, eu incluso, a que melhor traduz o espírito da obra original. A tradução foi feita por António Rocha e Alberto Monjardim, que optaram por manter os nomes de pessoas e lugares como no original poupando-nos de delírios e liberdades de interpretação.

A terceira é aquela publicada pela Martins Fontes em 1994, traduzida por Lenita Rimoli Esteves e Almiro Pisetta, tendo sido revisada por Ronald Krymse, que é considerado o maior especialista em Tolkien no Brasil e autor do ótimo livro “Explicando Tolkien”, lançado em 2003 pela mesma editora. Esta nova versão acerta ao adaptar de forma aceitável os nomes de pessoas e lugares da Terra-Média, seguindo o método proposto pelo próprio autor para isso e ao traduzir os poemas e canções respeitando as rimas e o sentido das mesmas. Porém não passou sem erros...

Ocorre que, dez anos depois estes erros foram percebidos. Com o advento dos filmes dirigidos por Peter Jackson, surgiu uma nova geração de fãs e leitores da obra de Tolkien, e com o acesso destes às sociedades tolkienianas brasileiras através da internet, não tardou até que os erros e omissões da tradução da Martins Fontes vazassem na rede mundial de computadores.

Tudo começou quando alguém deu falta do anel que Saruman deveria estar usando enquanto conversava com Gandalf em Isengard, durante uma conversa no Fórum Valinor, um site brasileiro especializado na obra de Tolkien. Verificada esta omissão, o site formou uma força tarefa para fazer uma varredura completa na obra, com o intuito de notificar a editora e cobrar por uma nova edição, desta vez completa, de “O Senhor dos Anéis”.

Em 2004, após o trabalho da força tarefa Valinor (que detectou não só omissões, mas também erros grosseiros de tradução e de interpretação do texto original) foi anunciado por Ronald Krymse, em seu site oficial, que ele revisaria uma nova tradução de “O Senhor dos Anéis” que ficaria a cargo de Waldéa Barcelos, que já havia traduzido outros textos de Tolkien como “O Silmarillion”, “Roverandom” e “Mestre Gil de Ham”. Esta informação ganhou força quando os tradutores Lenita e Almiro entraram na justiça requerendo direitos autorais, uma vez que a editora relançou a obra em 2001.

Até hoje não tivemos notícias sobre esta nova tradução, além das constrangedoras mudanças que Krymse divulgou que faria, na época, como por exemplo trocar o nome da Terra dos Buques, por Boquelandia. Estamos aguardando...
Tendo em vista o que foi exposto, tanto no caso Martins Fontes como no recente caso da editora Leya, quem sempre sai perdendo é o leitor. No caso de “Dança dos Dragões” já vi que tem gente que aceitaria até que a editora disponibilizasse uma versão on-line do capítulo omitido. Façam-me o favor...

As editoras deviam tem como prioridade a publicação de produtos de qualidade, que obedeçam as normas técnicas, a nova gramática da língua portuguesa e principalmente a integridade da obra original. Se a editora errou, deve recolher as viciadas edições distribuídas e substituí-las por outras sem vícios e devolver o dinheiro de quem comprou o livro e se sentiu lesado. Leitor é consumidor. Temos direitos e devemos exigi-los. 

Bem, se você tem inglês fluente sugiro que leia a obra original. Hoje em dia é fácil ter acesso a uma cópia barata em sebos das grandes capitais ou através da internet. Se não tem intimidade com a língua da rainha, só lamento...

E assim termina nossa primeira matéria especial “O Hobbit”, semana que vem falaremos sobre música tolkieniana. Quem viver verá.

Rock On!

Marlo George espera que a saga de Martin não sofra nas mãos de gente incompetente.

2 comentários :

  1. Ola a edição de 2001 do SdA tem essas omissões ?

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  2. Ola a edição de 2001 do SdA tem essas omissões ?

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