Gibi Review #05: "Yeshuah - O Círculo Interno O Círculo Externo", de Laudo Ferreira & Omar Viñole

Título: "Yeshuah - O Círculo Interno O Círculo Externo"
Autores: Laudo Ferreira (roteiro e desenhos) & Omar Viñole (arte-final)
Editora Devir | 138 páginas | História em Quadrinhos (Biografia)


Resumo bobo da história:
"Yeshuah - O Círculo Interno O Círculo Externo" segue o caminho de Jesus um pouco mais despojado dos textos canônicos, se aprofunda no humano e volta à tona com o sagrado, o puro. Jesus não cria cenas, mostra a verdade das coisas. Ele não multiplica a comida, ensina a dividí-la. ele mostra que sua fé não pode ser embasada na força do outro mas sim na sua própria. É nesse princípio que está moldado o Jesus dentro desta saga. Nada mais divino, sagrado e humano do que um ser compartilhando seu amor absoluto, seu conhecimento, seu coração e sua alma com todos. O Deus de Jesus estava dentro dele e era isso, compartilhar com todos, o que ele queria. Nada a ser temido, nem distante. Mas ali perto, dentro de cada um.

Trechos:
" - Rabi, queremos algo para comer! Dê-nos comida!!
- Faça um milagre! Faça surgir comida para nós!!
- (...) NÃO! Não haverá 'milagre'. Vamos fazer algo por nós mesmos. (...) Prestem atenção! Todos nós iremos nos alimentar. Todos! Vamos multiplicar o pouco alimento que temos, compartilhando. Compartilhando um com o outro. A fome minha é tão importante como a do meu irmão também."

"Não ande sobre a água com a minha fé, ande com a sua"


No deserto...
Resenha: Um dos livros mais complicados e polêmicos de se ler, sem sombra de dúvida, é a Bíblia Sagrada. Já li três vezes. E a minha favorita foi quando li como uma grande história, com personagens cativantes e finais surpreendentes. Mas , com o passar do tempo, acabamos lendo como algo sagrado, por conta da convicção pessoal ou mesmo por conveniência. E a mensagem acaba se perdendo na repetição interna de que o Sagrado está acima sempre. Dependendo do ponto de vista, está, claro. Mas o humano fica onde mesmo, hein? Não quero gerar controvérsia ao tocar num tema tão delicado como algo baseado num texto religioso e nem gostaria de colocar aqui a minha verdade. Longe disso. Aponto justamente para a real proposta dessa história em quadrinhos surpreendente que pretende mostrar parte do assim chamado "Novo Testamento" sob um ponto de vista mais... Bem, "demasiado humano", como diria quem disse também que Deus estava morto.
Mirian Migdalit e Yeshu



Diferente do filme "A Última Tentação de Cristo", o autor Laudo Ferreira segue os passos de Jesus desde o nascimento e formação de caráter (no primeiro volume "Assim em Cima Assim em Baixo"), passando pelo seu "ministério" já em plena convicção de sua "missão". Eu disse "Jesus"? Me desculpem... Aqui, ele chama-se "Yeshu", versão literal e original do nome que passamos a conhecer. E todos os personagens desta história são remetidos a uma originalidade a partir justamente de se buscar o original, o primário, a matriz. Quem eram esses homens e mulheres? Isso não importa tanto quanto a influência deles na história.

O roteiro deste segundo volume aborda tanto a parte dos grandes milagres promovidos por Yeshu quanto as conspirações à sua volta da parte de Hordus Antipas (Herodes). Os milagres vão desde fazer um cego enxergar, peixes se multiplicarem ou, simplesmente, convencer que um homem está errado em pensar que alguns não merecem a benevolência e o perdão.

A história, em ambos os volumes (que se encerram num terceiro, a ser lançado em breve), começa com uma mulher contando a história de Yeshu e seus seguidores a um escriba. Uma mulher idosa. E não sabemos sua identidade embora imaginemos quem ela seja pela riqueza de detalhes do que conta. Mas ela não é importante. O que realmente importa é ver fatos que muitos de nós sabemos de cór vistos sob um ponto de vista intimista e completamente diferente. A multiplicação dos pães acontecer não por milagre e sim por conscientização de que o próximo também merece comer - e daí o milagre - é algo profundo, belo e completamente possível. Não conseguimos matar a fome de todos mas pelo menos os que estão próximos de nós já é algo mais possível. Independente de quem está próximo e de o conhecermos profundamente. A fome é comum a todo ser humano... E, mais uma vez, o humano sobrepõe-se ao divino.

A pesca maravilhosa
Uma passagem que me levou lágrimas aos olhos foi quando uma mulher cananéia chega a Yeshu pedindo que curasse sua filha e alguém do povo a seu redor diz que ela é cananéia e "não merecia" estar ali. Yeshu concorda dizendo que estava aqui "somente para cuidar das ovelhas de Israel". Quando ela insiste, ele retruca dizendo que "não é correto tirar o pão da boca dos filhos e dá-los aos cachorros". A mulher, irada e com lágrimas nos olhos diz: "Então, Rabi, é esta a 'salvação' que prega? Uma salvação só para 'eleitos'? E por acaso os 'cachorros' não comem as migalhas caídas da mesa de seus 'donos'?". Em três quadros, vemos o rosto de Yeshu transtornar-se e ele chora, pedindo perdão à mulher e dizendo algo surpreendente: "Sua fé é maior do que a minha verdade. Vá... E creia, sua filha está curada. Da mesma forma que a mim você acabou de curar". Confesso que já havia lido essa passagem no Novo Testamento e nunca havia "alcançado" seu real significado, como em muita coisa escrita na Bíblia. Porque Jesus faria isso se prometia que Deus "não faz exceção de pessoas"? Era um teste? Dizer não para dizer sim? É importante dizer que o diálogo descrito acima não acontece da mesma forma no Livro Sagrado e faz com que a vemos sob uma nova óptica, inédita e, por que não dizer, mais eficaz.
Não à toa, a multiplicação dos pães ocorre após esse fato...

Shimon e Yeshu
Outra parte importante é mostrar o pescador e, mais adiante, o discípulo Shimon (Simão, que se tornará Pedro) como um homem que detesta mulheres e despreza sua participação no ministério de Yeshu. E deixa isso bem claro! É um homem bruto, de pouca instrução e vindo da parte mais distante da cidade. E é completamente natural que ele aja assim pois essa era - e ainda é - uma convicção muito forte de sua cultura. Mas porque isso nunca foi explorado? Curiosamente, os textos reservados a Miriam Magdalit (Maria Madalena) também são inspiradíssimos, mostrando as facetas de outro ponto de vista mantido de lado nas Escrituras - possivelmente por terem sido escritas por homens...
 A visão do cálice...

O autor buscou pesquisar em textos apócrifos diversos e também contou com a ajuda da tradutora Ana Carolina Faria Curralo para versar os nomes dos personagens e lugares para o hebraico de forma correta e cuidadosa. Tudo feito com coerência e o respeito que o tema e a história merecem...

Visualmente falando, a obra também nos apresenta uma das abordagens mais diferentes que já vi em relação ao tema. Todos os personagens assumem um traço caricatural. Mas é tudo proposital! Todos tem feições exageradas, narizes enormes, lábios protuberantes, frontes projetadas, como em todo o povo do Oriente Médio. À princípio, causa-nos estranheza. Mas o motivo é que vemos, por muito tempo, atores norte-americanos e europeus fazendo esses papéis que acabamos nos esquecendo de suas origens... A caracterização física de cada personagem feita por Laudo Ferreira e magistralmente finalizada por Omar Viñole segue cada passo da história como único, tornando o resultado belo, impactante, arrojado e totalmente factível.

Exemplo disso é a cena onde Yeshu tem de escolher entre os dois "cálices". é uma decisão difícil porque, na verdade, ele nunca teve escolha. Essa sempre foi sua missão e ele sempre soube o fim dela. Mas é sempre desconfortante confrontar-se com a possibilidade da falha. O medo. A dúvida. E também não foi à toa que Yehudah (Judas Iscariostes) aparece logo em seguida, levando-nos a aguardar pelo encerramento desta magnífica história no próximo volume. E que venha logo!

Kal J. Moon é um cachorro. E aguarda suas migalhas...

Trilha Sonora: "Jesus Freak", dcTalk

 



Sobre os autores
Laudo Ferreira
Laudo Ferreira Jr: Nascido em São Vicente, litoral de São Paulo em abril de 1964, começou a publicar seus primeiros trabalhos profissionalmente no início dos anos 80 através da Editora Press. Nesse período participou de vários jornais como chargista e produzindo a série de tiras “A Voz do Louco”, que foram feitas até início dos anos 1990. Participou em meados dos anos 80 ativamente do movimento de quadrinhos independentes, lançando alguns trabalhos e participando de publicações de todo país. Em 1995, lançou pela Editora Nova Sampa a adaptação em quadrinhos do filme “À meia-noite levarei a sua alma” do cineasta José Mojica Marins, o Zé do Caixão. Essa mesma história em quadrinhos foi lançada no mercado americano através da Editora e Produtora de Vídeo Something Weird e veio a ganhar o Prêmio HQ Mix em 1996 como "Melhor Graphic Novel” de 1995. Em 2000 publicou “Subversivos: Companheiro Germano” com roteiro de André Diniz pela Editora Nona Arte, além de criar a personagem Tianinha para uma publicação da Editora Rickdan (Revista Sexy). Em 2007 lançou a série em quadrinhos “Histórias do Clube da Esquina” baseada no livro “Os sonhos não envelhecem” de Márcio Borges para o site do Museu Clube da Esquina. Em 2008, recebe o Prêmio Ângelo Agostini na categoria de Melhor Desenhista de 2007, prêmio dado pela Associação de Cartunistas e Caricaturistas de São Paulo. Criou o selo “Quadro Imaginário” para publicações independentes e lança os dois primeiros números da revista “Depois da Meia-Noite”. Possui o Estúdio Banda Desenhada, criado em parceria com o arte-finalista Omar Viñole desde 1996, atuando nos mercados editoriais, publicitário e de eventos.
Omar Viñole

Omar Viñole:
Sua carreira de ilustrador teve início em 1994. Atuou como artefinalista no desenvolvimento dos personagens da "Turma da Xuxinha". Ao longo de sua carreira, atuou em estúdios como Flash e APA (Associação Paulista das Artes). Em 1996, junto ao sócio
Laudo Ferreira Jr, funda o Estúdio Banda Desenhada dando início às atividades da empresa, atuando como diretor de criação, artefinalista e ilustrador.

7 comentários :

  1. Oi Kall!
    Minha nossa! "Aguarda a suas migalhas",isso ficou dramático,hahaha,mas gostei.
    Se aprofunda no humano e volta à tona com o sagrado,vou querer ler,achei bem diferente para um tema tão batido.
    Se puderem e não se importarem,passem lá no blog.
    Bjos Fabi
    http://roubando-livros.blogspot.com

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  2. Oi, Fabi... E eu achando que todo mundo ia odiar minha "assinatura" nesta resenha, hehehe... Que bom que gostou... Já visitei teu blog e deixei um comentário lá... Abração carioca!!! (KJM)

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  3. Marlo George25 maio, 2012

    "... acabamos lendo como algo sagrado, por conta da convicção pessoal ou mesmo por conveniência", vindo de quem vem, um devoto sincero de Seu Senhor e não de um babaca qualquer metido a ateu ou ateísta, é louvável o comment.

    Não gostei do traço e isso, você sabe, comprometerá, e muito, meu interesse em ler, mesmo sendo seguidor da suprema verdade de que "o desenho está à serviço do texto"...

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  4. É, Ibagis... É polêmico, sim... Mas só porque traz um Jesus mais... como é mesmo a palavra? Mais "familiar"... E surpreende mesmo!! Abração!!! (KJM)

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  5. Fala, Marlo... O desenho, como disse na resenha, causa muita estranheza à princípio... Porém, após algumas poucas páginas de leitura, a gente se acostuma e o texto é tão bem elaborado que isso passa desapercebido e torna-se essencial à leitura, como se tivesse sido estranho... (KJM)

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